UBERTO VANNI D´ARCHIRAFI-Embaixador de Itália

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OS DESAFIOS DA DIPLOMACIA ECONÓMICA: A ITÁLIA ENTRE DIPLOMACIA CULTURAL DIPLOMACIA ECONÓMICA.

O curso de mestrado em Relações Internacionais e Estudos Europeus da Universidade de Évora organiza, nos meses de Março e Abril deste ano, um ciclo de conferências que pretende analisar Os Desafios da Diplomacia económica. Nesse contexto, a Dra. Irene Viparelli, docente de Diplomacia Económica, convidou-me a ilustrar a arquitetura institucional do modelo da diplomacia económica italiana, no geral, e as peculiaridades da minha missão em Portugal. O convite agradou-me especialmente porque me permite partilhar algumas reflexões que têm orientado a diplomacia italiana dos últimos anos e também a minha ação específica em Portugal, potenciando a diplomacia económica também através da diplomacia cultural.

Para introduzir a questão da diplomacia cultural, gostaria de partir de um princípio muito simples: até há pouco tempo dizia-se que a Cultura não dava de comer. Na verdade, não é assim. A Cultura é um fator de enorme potenciamento económico para quem a tem. O meu País possui 53 sítios UNESCO, o número mais elevado no mundo. A diplomacia cultural é portanto determinante. O património cultural é a linfa vital da Itália. Ele estende-se de Norte a Sul e abrange 400 museus públicos e 4000 museus cívicos e privados em 20 regiões, cada uma das quais apresenta extraordinárias belezas culturais. É necessário, porém, definir os limites da Cultura. A Cultura encontra-se em todo o lado: política, sociedade, economia, comércios. E a capacidade de um país de aproveitar a sua Cultura e dar-lhe valor económico reside em identificar uma capacidade transversal da Cultura em todos os sectores.

Por que razão quis identificar na Cultura um factor económico para o meu País? Porque Cultura e Economia estão intimamente ligadas. Até há alguns anos a Cultura era considerada um dado adquirido, era dada por óbvia, era algo que tínhamos, provinha de 2500 anos de História – pensemos no Coliseu ou na Domus Aurea.

Para introduzir a questão da diplomacia cultural, gostaria de partir de um princípio muito simples:
até há pouco tempo dizia-se que a Cultura
não dava de comer.

Assim, julgávamos moralmente censurável tirarmos proveito de algo que era uma joia de família e tinha, portanto, de ser guardado «a sete chaves», como se diz em Portugal, mesmo face ao seu possível degrado. As coisas têm mudado radicalmente ao longo dos últimos anos. Enquanto Sistema País, quisemos percorrer um novo caminho de desenvolvimento também para a Cultura e pusemos no centro das nossas políticas de governo a Cultura e as políticas culturais. Procurámos dar maior consistência àquilo a que sempre chamámos de soft power , para o fazer ascender a um instrumento concreto da nossas política de relações internacionais. E nesse sentido encetámos diálogos com a UNESCO por um lado e as Nações Unidas por outro, para substantivar duas linhas de orientação fundamentais, sempre sob o princípio unívoco da proteção do património cultural.

(…)Enquanto Sistema País,
quisemos percorrer um novo caminho de
desenvolvimento também para a Cultura (…)

Todos temos ainda na mente as destruições perpetradas no Médio Oriente pelo Daesh e pelo ISIS, destruições essas que visavam destruir as identidades culturais nacionais e atingir os símbolos de uma civilização. Eis portanto a necessidade de uma intervenção mais incisiva da comunidade internacional, que podia atuar através do apoio da UNESCO. Graças aos acordos com esta organização internacional, foi criada a equipa UNITE4HERITAGE (os capacetes azuis da cultura), um corpo de 60 pessoas, 30 pertencentes aos Carabinieri (nomeadamente ao Comando para a Proteção do Património Cultural) e 30 peritos da sociedade civil, arquitetos, historiadores de arte, engenheiros, todos eles mobilizados preventivamente para porem em seguranças bens em risco ou para iniciarem operações de restauro após situações de conflito. E esta é a primeira das duas linhas de orientação. A segunda, paralela, foi a de desenvolver juntamente com as Nações Unidas um percurso que pudesse prever, quando necessário, no âmbito das missões de paz e segurança internacional, uma vertente cultural, com a ideia de integrar nessas missões o grupo de peritos, historiadores de arte, engenheiros e arquitetos. Nessa perspectiva, a Itália tem adquirido ao longo dos últimos anos um valor de excelência, ao ponto de vir a ser qualificada como superpotência cultural. O que me parece merecido!

“Itália tem adquirido ao longo dos últimos anos
um valor de excelência, ao ponto de vir a ser
qualificada como superpotência cultural”

Recordo, ainda, que em 2015 os Ministros da Cultura de 83 Países, reunidos por ocasião da Exposição Universal de Milão, aprovaram um documento que pela primeira vez juntava Estados muito heterogéneos em volta da necessidade de salvaguardar o património cultural. Mas é muito importante para mim, nesta circunstância, focar a atenção num evento que evidenciou mais do que nunca a importância do Património cultural também enquanto factor económico. Falo da reunião G7 dos Ministros da Cultura, que teve lugar em Março de 2017. Os grandes da Terra reconheceram o valor fundamental de todos os Estados Membros na proteção do património cultural como fator de identidade, crescimento, desenvolvimento social dos povos e da sua economia. Este percurso que a Itália tem realizado constitui-se como uma verdadeira diplomacia cultural, porque juntou Países que de outra forma não falariam entre si, criou pontes lá onde por razões políticas elas tinham sido destruídas. E graças a essas pontes abriram-se vias, comércios, acordos económicos e comerciais.

A diplomacia cultural expressa-se com os seus ramos operacionais através da diplomacia económica, que para o meu País é exercida através dos Institutos para o Comércio Estrangeiro, as Câmaras de Comércio Italianas nos diversos Países, e ainda as Embaixadas e os Institutos de Cultura. Trata-se de um network que torna operacionais as políticas de promoção económica do nosso País, mas também promove a nossa riqueza cultural. O desafio, enquanto Embaixador de Itália em Portugal, é consolidar um desenvolvimento harmonioso de todas as componentes da Diplomacia que caracterizam as relações entre Itália e Portugal: da económica à científica, da social à cultural. Certamente a Cultura é um extraordinário fator de união e de colaboração e é um instrumento fundamental nas relações entre Estados, mas ambos os Países temos um interesse essencial em incrementar também o desenvolvimento de relações económicas, sobretudo nesta fase internacional que indica, para todos, um abrandamento no crescimento. Sob o perfil social, temos uma comunidade de mais de 13.000 italianos a viverem aqui e é uma comunidade que se está a organizar e que se integrou perfeitamente em Portugal, um País de beleza sem iguais, acolhedor e aberto como de resto é demonstrado por séculos de história e de integração entre povos diferentes.

Ainda, a Itália é País observador associado na CPLP e deseja aprofundar as suas ligações com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, porque considera que dessa ligação poderão derivar importantes retornos de caráter também económico e cultural, além de social e político. Por outro lado, promovemos com determinação o ensino da Língua e Cultura italiana nas escolas portuguesas, o que alia à promoção cultural a possibilidade de criar emprego e oportunidades para os jovens envolvidos nos nossos projetos pilotos.

Com Portugal partilhamos ainda princípios e valores que estão na base da nossa convicta pertença à União Europeia. Somos bem mais do que meros parceiros e somos movidos por extraordinários sentimentos de amizade e de mútuo entendimento. Também a área do Mediterrâneo constitui um fator que nos une e nos define na nossa identidade cultural. Creio, finalmente, que a nossa colaboração poderá ulteriormente desenvolver-se em volta dos grandes desafios epocais que poderemos enfrentar juntos e que são destinados a caraterizar o percurso comum dos próximos anos: o crescimento sustentável, a revolução digital, em todas as suas manifestações, a globalização, a cibersegurança e a pertença ao complexo mundo do multilateralismo que hoje parece ter de reassentar sobre novas e mais concretas exigências.
Uberto Vanni D’Archirafi,
Embaixador de Itália.

 

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