O Mar da Lusofonia “o nosso maior recurso”

A teoria do comércio internacional, que assenta nas teorias dos autores clássicos Adam Smith – teoria das vantagens absolutas (1776) – e Da­vid Ricardo – teoria das vantagens comparativas (1820) – está amplamente estudada e é conhecida por qualquer economista ou empresário. Muitos anos depois, a base continua a mesma, mas com algumas evoluções, a principal sendo, diria eu, a evolução para a teoria das vantagens compe­titivas, que resulta essencialmente do aumento global da concorrência. Um País já não se pode “comparar” apenas com outro País, mas tem que produzir e afirmar-se no seio de um mercado global, altamente concorrencial e com uma forte capacidade de em pouco tempo “imitar” e mesmo fazer melhor do que nós. A variável fundamental que, diria eu, temos que adicionar para pensarmos a estratégia de um País (ou mesmo de uma empre­sa) é a procura.

Uma estratégia de crescimento deve ter em con­ta, muito resumidamente, estes dois factores: 1) as vantagens competitivas – aquilo em que é diferente, os recursos de que dispõe, aquilo que sabe fazer bem e 2) aquilo que o mercado procura. O segredo estará algures no cruzamento destas duas premissas. Podemos até ser muito bons em determinada arte ou ter elevados recursos de determinada matéria, mas se o mercado não procurar esse produto, provavelmente não deve ser o caminho a escolher ou, pelo menos, o inves­timento não deve estar aí concentrado. O raciocínio de construir estradas e depois os automobilis­tas aparecem, já não cola. Pelo menos, não no estado em que Portugal está. A escolha tem que ser acertada e tem que ser consensual. Guardei para sempre a conversa de circunstância que tive com um empresário americano num avião, que me dizia que o problema de Portugal era que queria à força exportar os produtos que os por­tugueses gostavam e não aquilo que os países de destino procuravam. De facto, aquilo de que gostamos, que só nós sabemos fazer, e que até muitos estrangeiros também gostam, deve servir para atrair turistas, não necessariamente para exportar.

Alguma coisa devemos estar a fazer mal. A verdade é que o País não consegue crescer a taxas que sustentem as nossas necessidades e a modernização do nosso tecido empresarial tarda em afirmar-se. A discussão politica nacional gira, invariavelmente, em torno do numerador dos rá­cios que medem o desempenho económico e es­quece recorrentemente o denominador comum, o PIB. Se formos capazes de alinhar os objectivos em torno do crescimento do denominador, em vez de sublinhar as discórdias sobre a gestão do numerador, automaticamente este último deixará de ser tão relevante. E o denominador, só vamos conseguir altera-lo significativamente se tiver­mos em conta as nossas vantagens competitivas e o que o mercado global procura.

Comecemos pela segunda, a procura. Um ensaio sobre aquilo que irá influenciar a procura no séc. XXI daria para encher estas páginas, mas se tivesse que resumir a um principal factor de in­fluência na procura mundial, escolhia a evolução demográfica – até meados deste século vamos ser mais 2 mil milhões de pessoas no mundo! Em consequência deste aumento demográfico, há algumas áreas que terão, obrigatoriamente, de dar resposta e satisfazer o aumento consequente do consumo:

A procura de proteína;

A procura de energia;

A procura de transporte (sobretudo de mercado­rias);

A procura de tecnologia (como denominador comum a todas as outras).

Se olharmos então para as vantagens compe­titivas de Portugal e para os recursos de que dispõe, temos a sorte, talvez única nas últimas décadas, de o nosso principal recurso, aquilo que nos distingue dos restantes países, até geo­graficamente, o Mar, estar perfeitamente alinha­do com as grandes tendências deste século. De facto, é no mar que está grande parte da respos­ta a esta procura. Por várias razões, pela dimen­são incomparavelmente superior do mar em relação à terra, pela sobre-exploração e exaustão dos recursos existentes em terra e pelo facto de um novo conhecimento científico e novas tecno­logias no permitirem explorar recursos naturais antes inacessíveis.

Se olharmos para o mapa de Portugal, é dema­siado óbvio que o Mar faz parte da nossa geo­grafia. Se tivermos em conta o Mar no mapa de Portugal, facto que foi sistematicamente esque­cido até há poucos anos, chegamos à conclusão que Portugal é, afinal, um país grande, central e com um enorme recurso.

Somos a maior Zona Económica Exclusiva da Europa e, com o aumento da nossa plataforma continental, passamos a estar entre os 10 maio­res países do mundo!

Estamos no centro das principais rotas de co­mércio mundial e na fronteira entre o Atlântico norte e o Atlântico sul, gozando de uma posição estratégica na triangulação com o continente afri­cano e sul americano (e já agora, com os países lusófonos), espaço onde estará uma boa parte da procura no século XXI

E temos uma enorme fonte de recursos – o Mar. O leito marinho, as ondas, o vento, as caracterís­ticas biofísicas únicas das nossas águas, quer em termos geológicos, quer minerais, a nossa biodiversidade marinha, etc, etc…

Cruzemos então as duas premissas.

A procura de proteína

A FAO (Food and Agriculture Organization) es­tima que, devido ao aumento demográfico, até meados deste século, vamos ter que produzir mais 70% dos alimentos que produzimos hoje. A crescente preocupação com temas como a saúde e o bem-estar e o surgimento de novas classes médias em países emergentes, representam uma oportunidade muita clara para a produção de pescado, por outras palavras, para a aquacul­tura, já que o peixe que existe no mar não será suficiente para dar resposta a esta procura. An­tes pelo contrário, a tendência a que assistimos é uma redução constante nas quotas de pesca. A hesitação a que assistimos na sociedade de hoje na aceitação do pescado de aquacultura irá rapidamente desaparecer. Aliás, deixe-me dar­-lhe uma novidade – o salmão que consumiu este mês era produzido em aquacultura! Mas além da aquacultura, o aumento do consumo de peixe representa também uma oportunidade para a indústria do processamento. 80% do pescado que consumimos é de alguma forma processado. Ora, esta é uma tendência com influência direta nas nossas conserveiras, nas empresas de peixe congelado, nas empresas de bacalhau.

A procura de transporte

Globalização e comércio internacional significa transporte de mercadorias. Ainda mais desde a descoberta do “ovo de colombo” do transpor­te – o contentor. 90% do comércio internacional é feito por mar e este número vai aumentar com o crescimento do comércio mundial, influencia­do também pelo aumento das importações dos países emergentes. A União Europeia elegeu o transporte marítimo (de curta distância) como o meio preferencial para o transporte de mercado­rias na Europa. O transporte por navio ainda é o meio mais barato e menos poluente das alterna­tivas que conhecemos e, com o desenvolvimento da tecnologia, continuará certamente a ser.

Todas estas tendências representam uma opor­tunidade para os nossos portos e comunidades portuárias (operadores portuários, estivadores), para as empresas de Shipping, mas também para as indústrias navais, no caso português mais concretamente para a manutenção naval e servi­ços associados.

A procura de energia

A procura por energia não é novidade. O ele­mento novo neste caso é o mar. O esgotamento dos recursos terrestres está a empurrar a in­dústria de oil&gas para o offshore. A maior fatia de investimento (capex) desta indústria está na exploração offshore. O número de descober­tas de poços no offshore tem dobrado a cada 5 anos desde o início do século.

Por outro lado,a procura por energias mais limpas, questões como a segurança energética e segurança do abastecimento, estão a influenciar a procura por energias renováveis. Veja-se o caso do Japão, por exemplo, ou mesmo do Reino Unido. E o mar é uma enorme fonte de energia renovável. Ener­gia das ondas, energia das marés e energia do vento. As duas primeiras estão ainda numa fase muito embrionária de investigação, não existindo ainda uma tecnologia fiável que as sustente, mas o mesmo não é verdade com a energia do vento. A tecnologia existe e funciona. O vento offshore é uma realidade! E Portugal teve um papel fun­damental na fase de teste e prova de conceito da tecnologia flutuante. No mar temos mais vento e este é mais constante. A dimensão do Mar de Portugal pode ser um ativo único na geografia energética do futuro.

A procura de tecnologia

A tecnologia é o elemento agregador e transver­sal a todas estas tendências. É a tecnologia que nos dá as ferramentas de acesso ao Mar e que nos permite gerar valor com o Mar. É com tec­nologia que desenvolvemos energia mais limpa, que teremos motores menos poluentes, que reti­ramos mais valor do pescado (através da biotec­nologia marinha), que seremos mais eficazes na produção de alimentos. Também aqui, Portugal está bem posicionado. Desde a Expo 98 que o País investiu bastante na investigação e conhe­cimento do Mar. Hoje temos mais de 50 centros de investigação e conhecimento dedicados às temáticas do Mar, o que nos permite antecipar o surgimento de novas empresas e novos pro­dutos. Se devidamente apoiados e incentivados, estes centros de conhecimento podem ser o Pinhal de Leiria do Séc.XXI e o que nos permitirá de novo explorar o nosso Mar.

Portugal tem uma oportunidade única para voltar a ter um papel de relevo na economia mundial. Nesta revolução, pela primeira vez, temos o recurso principal. É preciso apenas um plano consensual que implemente esta visão (que é de longo prazo!) e começaremos a ver os resultados no denominador comum muito em breve.

 

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