FRANCISCO DE ASSIS, FRANCISCO DE ROMA

FRANCISCODOIS HOMENS E 8 SÉCULOS A PERPETUAR UM SÓ IDEAL

Era o ano de 1219. Francisco de Assis, fundador da Ordem Franciscana e genial arauto da Fraternidade universal e da Ecologia integral, deixava a sua cidadezinha de Assis, na Úmbria italiana, embarcando em Ancona a 24 de junho de 1219 para, acompanhado de um dos seus primeiros confrades, Fr. Iluminato, se dirigir a Acre e daí a Damieta, na costa egípcia da Palestina, para, como primeiro Cruzado sem armas, se juntar ao exército de cruzados cristãos, que então tinham montado cerco a essa cidade de sarracenos.
Movido pelo seu ideal de pacificador e de missionário do diálogo e do encontro dos diferentes povos, culturas e crenças, dirigiu-se ao cardeal Pelágio, que, como delegado papal, acompanhava a Cruzada e solicitou-lhe permissão e bênção para, como embaixador de Cristo, ir ao encontro do sultão Melek.el-Kamil, governador da cidade sitiada.
Não tendo obtido permissão nem bênção dos responsáveis pelas hostes cristãs, conseguiu ser recebido, juntamente com Fr. Iluminato, pelo sultão, que o acolheu com simpatia e com ele estabeleceu um diálogo, que hoje diríamos inter-religioso, e cumulando-o de presentes e pedindo que rezasse por ele, o deixou partir em santa Paz e Bem.

Este momento sublime e imorredoiro, que marcou toda a história de oito séculos de presença missionária franciscana entre os povos do islão e que ainda hoje os mantém como guardiães da Terra Santa, assenta naquele espírito e orientação, que, uma vez regressado a Itália, Francisco consignou na sua “Regra Não Bulada” como norma de vida, segundo a qual, “os Irmãos que vão para entre os sarracenos e outros não crentes da nossa fé, vivam aí de dois modos. Um é não se envolverem em argumentações ou disputas, sujeitando-se a toda a humana criatura por amor de Deus e fazendo saber que são cristãos. Outro é anunciarem a palavra de Deus, quando virem que isso é propício e agradável ao Senhor”.

Gesto e espírito genial e digno de especial celebração, sobretudo nestes nossos conturbados tempos em que, por reação a certos atos de terrorismo internacional e outros choques de interesses, tem crescido, mesmo entre os cristãos, a intolerância, a incompreensão e a oposição, por vezes enraivecida, entre os seguidores destas duas grandes religiões monoteístas, irmãs tão próximas na sua génese e na comum adoração ao único Deus, Omnipotente, Misericordioso e Misericordiador. Consciente disso e pelas mesmas razões e ideais de Francisco de Assis, o Francisco de Roma, Papa Francisco, que, praticamente em todas as suas intervenções de magistério pontifício, tem insistentemente apelado ao diálogo e aproximação inter-religiosa, particularmente com os irmãos do Islão, resolveu, entre outras manifestações, marcar este feliz oitavo centenário do Encontro de Damieta com uma deslocação, a primeira de um papa em toda a história, aos islâmicos Emiratos Árabes Unidos, onde, recebido em 3 de fevereiro de 2019 com a mesma cordialidade e fraterna simpatia de Melek-el-Kamil, assinou com o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, a Declaração de Abu Dhabi, um inédito, histórico e pioneiro Acordo no qual, condenando o terrorismo e a intolerância religiosa, “pedimos a todos que deixem de usar as religiões para incitar ao ódio, à violência, o extremismo o fanatismo cego, e que se abstenham de usar o nome de Deus para justificar atos de assassinato, exílio, terrorismo e opressão”. Que esta prece dos dois principais líderes religiosos da cristandade e do islão, também por intercessão de S. Francisco de Assis, arauto da paz através do diálogo, nos inspire a todos e que também a nossa revista “Diplomática”, ao fazer esta dupla evocação, seja instrumento da verdadeira diplomacia, ou seja, daquele empenhamento ativo, que levou S. Francisco a rezar “Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz”.

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *