Entrevista com Giuseppe Morabito, embaixador de Itália em Portugal

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Licenciado em Ciências Políticas em 1977, Giuseppe Morabito, natural de Roma, ingressou na carreira diplomática em 1981 e desde então tem colaborado com diversas organizações económicas e políticas internacionais. Já trabalhou em Bagdade, Paris, Bruxelas e Miami antes de rumar a Beirute, no Líbano, onde desempenhou pela primeira vez o cargo de Embaixador. Está desde setembro de 2015 em Portugal como Embaixador de Itália.

Desde pequeno que tem vontade de ser Embaixador?

Em pequeno, curiosamente, gostava muito de Geografia. Atraíam-me países estranhos, diferentes do meu, com outras culturas, com uma economia diferente da de Itália… Estados com uma História que não fosse simplesmente europeia e diferente da de Itália também.

Sei que nasceu em Roma. E depois, como foram os primeiros anos da sua vida?

Nasci em Roma, mas depois fui viver para Turim por um pequeno período. Turim é uma cidade muito artística, muito bonita, que mudou muito nos últimos anos. Turim era uma cidade fechada, um pouco provinciana, que estava mais voltada para Milão. Agora está diferente, é uma cidade mais importante, na vanguarda no sector das tecnologias e sede de importantes Polos Tecnológicos de Instrução, como por exemplo o ”Instituto Politécnico”, muito reconhecido no estrangeiro. Universidades com um foco mais técnico, que são muito reconhecidas no estrangeiro… É uma cidade que vive de serviços mais avançados, de alta tecnologia… Acho que está mais bonita agora graças ao turismo. Muitas pessoas escolhem Turim para viver mas depois vão a Milão para trabalhar. É a cidade que desenvolveu o movimento da Slow Food, fundado pelo jornalista Carlo Petrini na década de 80.

Em que consiste esse movimento?

Carlo Petrini realiza em Turim, de dois em dois anos, um evento chamado “Terra Madre”, que leva à cidade muitas comunidades de agricultores, porque a ideia é defender a biodiversidade e a variedade dos alimentos. O que se pretende é proteger a gastro
nomia mais tradicional, a comida original, e lutar contra uma gastronomia globalizada, o junk food. O objetivo deste projeto é lutar pela qualidade da comida e mostrar que os agricultores merecem ser respeitados, pois são aqueles que produzem os alimentos. É importante defender as pequenas comunidades de agricultores.

Depois da sua passagem por Turim, regressou a Roma para estudar?

Sim, estudei em Roma e depois comecei a fazer algum trabalho jornalístico. Fui o correspondente para Itália e para o Vaticano de um semanário brasileiro chamado Isto É, antes de entrar para a carreira de diplomata. Depois ingressei na carreira diplomática. Primeiro, fui Diretor Geral Adjunto da Cooperação Pelo Desenvolvimento, e mais tarde fui nomeado Diretor Geral para os países da África Subsariana. É uma grande paixão minha esta questão da cooperação e do desenvolvimento, em especial para o continente africano.

Gostou de desempenhar essa função?

Sim, gostei muito, e gosto muito dos países africanos. Na altura em que fui Diretor Geral, entre 2008 e 2010, a intenção que existia nesta instituição era fazer com que África não fosse apenas um continente de problemas, de SIDA, de conflitos, mas sim um continente de oportunidades. Isto é válido também hoje.

Então acha que a situação em África se manteve igual?

Não, felizmente África mudou muito. Temos hoje países com governos democráticos estáveis, temos países que têm conseguido diversificar a sua economia, há países que têm vindo a exportar cada vez mais, que têm agarrado boas oportunidades de estabelecer parcerias com outros Estados… É evidente que ainda existem muitos problemas, mas há países que apresentam resultados muito positivos em vários fatores, como a África do Sul ou o Gana. A Itália, tal como Portugal, esteve presente em África durante a época colonial. Portugal e Itália tiveram uma colonização com presença de muitos colonos, desde agricultores, pedreiros, entre outros profissionais. Foi uma imigração muito notória, tanto de gente qualificada como de pessoas muito simples.

O que está a achar de Portugal?

Estou a gostar muito. É um país com uma história antiquíssima mas, ao mesmo tempo, é um país moderno. Gosto da modernidade que encontrei aqui e que me surpreendeu muito. Portugal tem problemas financeiros, como a Itália também tem, mas está a promover bastante bem as exportações, está a promover os investimentos estrangeiros que podem ser feitos aqui, está a desenvolver o seu turismo de uma forma sustentável e inteligente. Gosto muito da iniciativa do Presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, que está a ser feita em Lisboa de proteger as lojas históricas. É uma ideia excelente, e há realmente uma grande necessidade de defender a “autenticidade” da cidade, isto se se quer atrair turistas. Se Lisboa ou o Porto perdem aquilo que faz delas cidades únicas, então tornam-se completamente iguais às outras cidades europeias. É importante defender as diferenças. Portugal é um país de diferenças – tem Porto, Lisboa, Braga, Coimbra, o Alentejo… São regiões diferentes do ponto de vista cultural, histórico e físico. Sendo pequeno, Portugal é um país grande na sua diversidade. E isso torna-o um país atrativo.

O que pensa do papel do turismo?

O turismo é muito importante, desde que seja um turismo sustentável. Tem de ajudar a economia sem que a vida das pessoas, sobretudo nos bairros mais históricos, seja demasiado afetada pelo turismo, que é, por si só, uma excelente oportunidade para as economias. Outra coisa que, por arrasto, me surpreendeu em Portugal foi a sua abertura ao exterior. Portugal compreendeu que, para viver num mundo globalizado, o melhor é ser cosmopolita. As Universidades portuguesas têm, em geral, uma grande percentagem de estudantes não só angolanos, brasileiros ou lusófonos, mas também de outros países. Isso significa duas coisas: que Portugal se abriu, e que estas instituições de ensino têm muita qualidade e são competitivas no mundo global.

Itália também é muito escolhida neste tipo de intercâmbios…

Sim, também. As estatísticas do Eurostat dizem que Itália é muito escolhida pelos alunos que concorrem ao Programa Erasmus, mas Portugal, em relação à sua população total, é um dos países mais escolhidos pelos estudantes europeus.

Casou e teve duas filhas. Elas estão cá?

Uma está no primeiro ano de Economia em Londres, e a outra está a terminar os seus estudos em Roma. Foram comigo para o Líbano, onde estive como Embaixador durante cinco anos antes de voltar para a Europa e ser colocado em Portugal.

Como correu essa sua passagem pelo Líbano?

O Líbano é um país surpreendente. É um país com problemas, e, poucos meses depois de eu ter chegado, começou a guerra na Síria. A fronteira com a Síria ficava a 40 quilómetros de onde estávamos, mais ou menos a distância de Lisboa a Setúbal. Era como nós estarmos em Lisboa e haver guerra em Setúbal. Por isso, a situação no Líbano era um pouco instável. Havia veículos blindados e muitos homens armados a patrulhar as ruas, mas apesar disso as pessoas viviam normalmente, dentro das suas possibilidades. E isso surpreendeu-me. O Líbano é um país de contrastes, um País afetado pela guerra civil da Síria, mas apesar disso a vida continua sempre. Este é um grande ensinamento que retiro da minha passagem pelo Líbano. É a verdadeira manifestação da ideia Carpe Diem.

O que acha que Itália tem de mais importante, algo que sinta que as pessoas devam saber sobre o seu país?

O mais importante são os italianos e as italianas. A Itália é um país que está a mudar muito. A economia está a mudar, e o país está a abrir-se. As pessoas começam a ter outra mentalidade. Antes, a família era a célula fundamental, mas hoje os jovens começam a ir para fora procurar emprego e novas oportunidades – vão para Londres, Bruxelas, Lisboa, Barcelona… A Itália é um país que quer valorizar muito a etiqueta Made in Italy; temos grandes marcas de moda, de design e de alta tecnologia. Sei que Portugal também está a fazer uma ótima aposta neste setor, como se comprova pelo Web Summit que vai acontecer este ano em Lisboa, fazendo dela a capital da alta tecnologia.

Quando veio para Portugal, que objetivos tinha especificamente para a missão no país?

O objetivo imediato era compreender o mais cedo possível o vosso país. Esse deve ser o papel do diplomata. A Diplomacia burocratizou-se um pouco nos últimos anos. Há muitas cimeiras, encontros… Acho que se perdeu um pouco aquela forma de fazer Diplomacia que se baseava em conhecer pessoas e estar com elas, porque isso é fundamental para aprendermos mais sobre a realidade e sobre o país em que estamos a trabalhar. Foi funda
mental quando trabalhei para a África Subsariana, para o Líbano e o Médio Oriente, como também é fundamental agora. Para conhecer a realidade, é importante mergulhar na sociedade, no mundo político, no universo dos jornais, dos escritores… Sou muito ávido de ler jornais. Acho que a imprensa portuguesa está muito bem feita e pode dar-me ideias e fazer-me chegar às pessoas mais importantes para mim. Por fim, o que pretendo para a minha missão, e não é retórica quando o digo, é promover um conhecimento recíproco entre os dois países. Quero que os italianos compreendam quais são ou podem ser as oportunidades para estudar, trabalhar ou negociar em Portugal, e pretendo que os portugueses saibam o mesmo a respeito de Itália.

Como está a balança comercial com Portugal?

A Itália é o quarto país exportador para Portugal. Temos grandes empresas italianas em Portugal, como, por exemplo, a FCA, a GI Group, a SMEG, a Benetton, a Calzedonia, a Ferrero, as Generali.

Como gostaria que fosse o futuro? 

Eu sou otimista por natureza. Espero que tenhamos todos um futuro melhor. A Europa está a passar por um período difícil, por isso quero trabalhar para construir um futuro melhor para as gerações que estão por vir. É importante aprender com a História e com os erros, pois eles ensinam-nos muito. Pessoalmente, acho que vi pouco ainda na minha vida. Há sempre coisas a ver, a fazer, a conhecer, a aprender. Acho que um diplomata é um homem que pode ajudar a tornar possível um futuro melhor, desde que compreenda que as sociedades são diferentes e mudam muito depressa.

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