Entrevista a Robert A. Sherman Embaixador dos Estados Unidos da America em Portugal

 

Entrevista a Robert A. Sherman, por Maria Bragança, fotos Ricardo Oliveira

Embaixador dos Estados Unidos da America em Portugal

“O que faz Portugal um grande pais e mesmo o povo portugues”

Nomeado Embaixador pelo presidente Obama, Portugal e o seu primeiro posto como Embaixador. Advogado de grande prestigio e com uma vasta experiencia em contencioso, fundador de um dos escritorios de advogados de maior envergadura internacional, detentor de um importante curriculo politico de relevantes cargos entre eles o de Conselheiro Especial do Procurador Geral de Massachusetts, o Embaixador Robert Sherman é casado com a empresaria e advogada Kim Sawyer e tem dois filhos.

O Senhor Embaixador nasceu. E depois?

Nasci em Boston e cresci numa parte de Massachusetts onde havia uma grande comunidade de portugueses. Os meus pais eram imigrantes. Muitas pessoas da comunidade portuguesa eram também americanos de primeira geracao, e portanto eu acabei por conhecer bem estes portugueses. Sabia que eles se entregavam muito a familia, sabia que eram muito trabalhadores, muito tolerantes, e portanto tinhamos muitos e fortes valores em comum. Os portugueses eram os meus amigos, os meus colegas de escola, e foi com eles que cresci.

 Os seus pais eram imigrantes de onde?

Os meus pais eram da Ucrania.

Tem irmãos?

Nao, sou apenas eu. Vim de uma familia muito pequena. Os meus pais, quando chegaram aos Estados Unidos, apenas vieram com os seus irmaos, portanto nao tivemos uma grande familia. Fui para uma escola em Nova Iorque, e depois regressei para Massachusetts, onde estudei Direito, area em que exerci durante 35 anos. Fiz variadissimas coisas enquanto advogado – representei as vitimas do escandalo de abuso sexual por parte do clero em Massachusetts, tal como fiz investigações sobre subornos a escala internacional. Mais tarde, o Presidente Obama perguntou-me se estaria interessado em tornar-me Embaixador. Quando disse que sim, ele questionou-me sobre qual seria a minha primeira escolha de pais. E eu respondi que a minha primeira escolha era vir para Portugal.

 E porquê Portugal?

Eu queria vir para um pais onde pudesse fazer a diferenca. Nao vim para ca de ferias nem para fazer um retiro, vim para trabalhar. E creio que eu e a minha mulher abordamos a nossa missao de maneira diferente quando comparado com outros Embaixadores. A minha mulher tem desenvolvido trabalhos fantasticos. E eu vi grande potencial em Portugal. Portugal tem sido um forte aliado dos Estados Unidos, portanto ha muito que possamos fazer juntos quer economicamente quer estrategicamente, que seja do interesse não apenas dos Estados Unidos como tambem de Portugal.

Esta é a sua primeira vez como Embaixador?

Sim, e a minha primeira vez como Embaixador. Nos Estados Unidos existem diplomatas de carreira que servem tambem como Embaixadores, mas também na nossa tradicao existe a possibilidade de ser o Presidente a escolher e a designar os Embaixadores

E o que aconteceu depois da chegada a Portugal?

Eu e a minha mulher chegamos a Portugal em abril de 2014. E um pais fantastico, nao apenas por causa do otimo clima, da comida maravilhosa, das praias lindissimas ou dos deliciosos vinhos. O que o faz Portugal um grande pais e mesmo o povo portugues. Quando fiz as minhas consultas no Departamento de Estado, paravam-me nos corredores e vinham dizer-me que souberam que eu ia para Portugal e acrescentavam: “como e que teve tanta sorte?” Eram diplomatas de carreira, que ja serviram um pouco ao redor do mundo. E o que me iam dizendo era que eu nao iria encontrar em todo o mundo um povo mais caloroso, mais recetivo e mais simpatico do que o povo portugues. E isso e verdade. Antes de chegarmos,  pensavamos que nos fossemos sentir perdidos numa terra estranha, mas, pelo contrario, os portugueses receberam-nos muito bem na sua comunidade e levaram-nos ate aos seus coracoes. Agora sentimos que temos dois lares, um aqui em Lisboa e outro nos Estados Unidos.

Gostei muito de ouvir o que o Senhor Embaixador disse dos portugueses e fico com muito orgulho …falemos agora um pouco do mundo… Aos seus olhos, como está o mundo de hoje?

E um mundo muito perigoso e muito dificil. Temos evidencias disso em cada lugar que observamos. Vemos as acoes do Presidente Putin na Ucrania, vemos o Medio Oriente, que e uma zona do globo tremendamente complicada, vemos disputas no sul do Mar da China… Portanto, acho que estamos a viver tempos muito perigosos e incertos.

Todas estas situações parece que arrancaram há pouquíssimo tempo… Até há relativamente pouco tempo o mundo viveu longos anos de paz.

Se olharmos para a Historia do mundo apercebemo-nos de que existem ciclos; periodos de paz intercalados com períodos de guerra. Tivemos a Segunda Guerra Mundial nos anos 40, tivemos a Primeira Grande Guerra praticamente no comeco do seculo… O mundo tem transicoes de periodos de paz para periodos de conflito, mas penso que a diferenca agora e a de que o mundo esta muito mais complicado do que foi alguma vez. Nos nos Estados Unidos entendemos que não podemos ser os policias do mundo. Precisamos de envolver mais paises e de faze-los interessarem-se pelos problemas do mundo enquanto parte de coligacoes. Mudamos a forma como pensamos acerca disto, acerca da nossa intervencao no mundo.

Não pretendem ter demasiada responsabilidade…

Eu diria que as responsabilidades sao as mesmas, e explico porque. Quando ha problemas, quando existe ebola em Africa, quando aumenta a violencia no Medio Oriente, quando ha um furacao no Haiti, o pedido de ajuda nao vai para Londres, nem vai para Paris, nem para Toquio e tambem nao vai para Pequim. Vai para Washington. E a nossa resposta e sempre: “sim nos vamos ajudar”. Por isso eu penso que a responsabilidade continua a ser enorme, contudo, a nossa estrategia mudou. Tem de ser uma responsabilidade partilhada para poder ter sucesso.

Neste momento em que a Europa está a ser invadida por esta corrente de imigrantes e de refugiados, qual vai ser a resposta dos Estados Unidos? Vão ajudar a Europa ou os refugiados diretamente?

Sim, claro. Na nossa historia nunca viramos as costas a pessoas que precisavam de ajuda. E eu sou um resultado disso. Nao fico indiferente a esta situacao dos refugiados ou dos imigrantes. Os meus pais eram imigrantes, e essa situação deles nao era assim tao diferente do que se passa agora. Os meus pais sairam da Ucrania porque estavam a ser perseguidos na Russia por causa das suas conviccoes religiosas.

Não eram imigrantes, eram mesmo refugiados, então.

Eram mesmo refugiados, exato. O meu avo desertou do exercito russo e atravessou a Europa a procura de lugares estaveis onde pudesse viver e a partir de onde pudesse partir com seguranca para os Estados Unidos.

 Vão também receber alguns refugiados?

Sim, ja estamos a recebe-los e planeamos acolher cerca de 80 mil pessoas, ou mesmo 100 mil pessoas. No proximo ano estamos a planear injetar milhões de dolares para ajudar a Europa no apoio a estas pessoas. Eu proprio tive encontros com o Governo portugues para oferecer apoio do governo norte- -americano para ajudar os migrantes que Portugal planeia receber. Nos olhamos para isto nao como um problema europeu mas como um problema a escala mundial. Acontece que esta a afetar a Europa de forma desproporcional, e acredito que todos os países do mundo tem a obrigacao de ajudar.

Que mais projetos tem concretizado, desde que chegou a Lisboa, para aproximar Portugal e os Estados Unidos?

Entre os projetos de que poderemos falar, e possível diferenciar os projetos estrategicos e os projetos economicos. Nos programas estrategicos esta o reconhecimento de que Portugal pode ser um importante parceiro dos Estados Unidos, visto que ambos nos envolvemos em varias questoes do mundo. Portugal e um dos paises fundadores da NATO e um forte aliado dos Estados Unidos. As exportações portuguesas chegam a partes muito complicadas do mundo, como o Golfo da Guine, e ajudam a manter a seguranca nessa zona, onde nos temos trafico de droga, terrorismo, trafico humano, pirataria… Somos parceiros de Portugal a esse nivel e também a nivel de ciber-seguranca. Portugal tem especialistas seus a trabalhar em Africa igualmente… Nos estamos focados na redefinicao da nossa relação estrategica com Portugal de acordo com as necessidades do nosso seculo. Estamos a tentar fazer muito a esse respeito. Economicamente, estamos a criar lacos com a inovacao e a investigacao que existe em Portugal. Investigadores, investidores e empresas norte-americanas vao ajudar a fazer crescer essas companhias e a criar postos de trabalho em Portugal e tambem nos Estados Unidos, porque empresas com este cariz naturalmente ambicionam chegar aos Estados Unidos, visto que e um novo mercado, e isso e otimo. Queremos promover o comercio transatlantico, que ajudara pequenas e  medias empresas a expandir o seu mercado nos dois lados do Atlantico. Temos de ter em conta que  95% das empresas em Portugal sao pequenas e medias empresas. Portugal so saira beneficiado desse acordo quando ele estiver concluido. Promovi esta minha iniciativa com uma equipa montada em motas da Harley. Pegamos nas motas e viajamos pelo Alentejo. Foi uma forma de ter a certeza de que conseguiria obter atenção para este importante acordo.

Quantas motos foram?

Tinhamos 300 condutores nessa empreitada, e istoaconteceu ha um ano. E meu desejo pensar de forma diferente. Nao quero seguir as mesmas estratégias habitualmente seguidas na Diplomacia. Preferi pensar naquilo que poderia conquistar as atencoes das pessoas.

Que conselho gostaria de dar aos jovens?

Aos jovens portugueses diria que o segredo do sucesso para tudo o que fizerem na vida e terem confianca. Ha muitas coisas boas a acontecer aqui em Portugal, no entanto acho que as pessoas que mais se surpreendem ao se aperceberem destas coisas boas sao mesmo os portugueses. Tem de haver um reconhecimento no seio desta geracao mais jovem de que nao ha nada que eles nao possam fazer. Tem todas as ferramentas para isso acontecer e, desde que tenham confianca, podem fazer deste pais um grande sucesso.

E o que acha desta grande crise, que tem levado a arrastar os jovens para o estrangeiro?

Acho que a crise tem sido muito exigente para o povo portugues, e espero que o Governo tenha tomado as medidas corretas e necessarias para sair da crise. E evidente que perder as melhores e mais iluminadas mentes jovens e complicado, mas a geração jovem que ficou em Portugal esta a criar empregos, na tecnologia e noutros setores, e isso e interessante. E por isso que eu, enquanto Embaixador dos Estados Unidos, estou a fazer o maximo para promover estes setores e manter esta nova geracao em Portugal. Inovacao, tecnologia, empreendedorismo, sao as palavras-chave.

 

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