Entrevista a Ioana Bivolaru, embaixadora da Roménia em Portugal

embaixadora romenia

Nomeada Embaixadora da Roménia em Portugal em junho deste ano, Ioana Bivolaru tem um percurso notável na área da Diplomacia, na qual trabalha há 17 anos. Licenciada em Comunicação Social pela Universidade de Bucareste, possui um mestrado em Estudos Administrativos e Políticas Europeias e trabalhou muito de perto com a União Europeia, tendo participado nas negociações de adesão da Roménia à UE.

O currículo da Senhora Embaixadora é de excelência e está muito associado à União Europeia. Quer contar-nos um pouco do seu percurso?

Fui estudante no College of Europe entre 1998 e 1999, e depois disso fui recrutada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, no momento em que a Roménia iniciou as negociações de acesso à União Europeia. O negociador-chefe fez um roteiro por algumas das mais prestigiadas escolas de Assuntos Europeus e, quando esteve em Bruges num encontro com estudantes, perguntou aos romenos lá presentes quem gostaria de se juntar ao MNE. Terminei os meus estudos no fim de julho, e no começo de setembro já estava a trabalhar com ele no seu gabinete. Depois passei por um concurso no interior do Ministério e foi assim que comecei a minha carreira, nomeadamente de 17 anos de experiência, em Assuntos Europeus. Em todas as fases do nosso acesso à UE, estive na equipa principal de negociação, em Bruxelas, numa missão permanente junto da União Europeia. Estive envolvida na redação do Tratado de Adesão da Roménia e exerci também funções nas Presidências europeias por três anos, em Roma, Helsínquia e Haia, cidades dos países que estavam a assumir a liderança europeia. A minha experiência em Haia, em 2004, foi especialmente interessante porque coincidiu com a finalização das nossas negociações.

A Roménia está prestes a celebrar 10 anos de permanência na União Europeia. Que balanço pode fazer desta década?

Definitivamente, um balanço muito positivo. A Roménia é um país que hoje está melhor. É
um país pró-europeu, com um governo que tem objetivos muito dirigidos à UE e à NATO, e na
Roménia existe, entre a população, um forte apoio a este projeto. Melhorámos a nível económico e também ao nível da agenda europeia, ou seja, na promoção dos objetivos da nossa política externa e da nossa Diplomacia.

Há sinais positivos visíveis de como a vossa entrada na União Europeia melhorou o
país?
 

Sim, claro! Por exemplo, o desenvolvimento de todos os parâmetros macroeconómicos. Há um claro crescimento no país e, neste momento, a Roménia é um dos países com maior crescimento económico na UE – esperamos cerca de 4,2% para este ano, com a perspetiva de se manter para o ano. É evidente que ainda temos desafios pela frente, como qualquer outro país, até porque o nosso ponto de partida foi diferente. Provavelmente, um dos desafios mais importantes é conseguirmos fazer um catch up económico e social, ou seja, reduzir as disparidades no interior do país, bem como entre a Roménia e os outros países europeus. Temos políticas ao nível europeu relacionadas com a coesão ou com a política agrícola
comum, que têm a finalidade de reduzir estas disparidades.

Existe uma certa ideia aqui na Europa Ocidental de que a Roménia é um país empobrecido… O que pode ser feito para mudar esta perceção que temos do país?

Essa perceção depende muito do termo de comparação que utilizamos. Mas passará muito por
reduzir disparidades. No entanto, essa visão decorre muitas vezes de falta de informação dos europeus ocidentais. Por exemplo, provavelmente poucos ocidentais saberão que a Roménia tem o nível de crescimento que tem, ou que tem uma das mais avançadas infraestruturas a nível de Internet e velocidade de Wi-Fi. Há muita coisa interessante a respeito da Roménia somos um país muito criativo, temos grandes investimentos nas TIC, na indústria aeroespacial, na construção de bicicletas ou helicópteros… Reconheço que existe uma certa distância entre Portugal e a Roménia, dois países que estão nos extremos da UE, mas temos imensa coisa em comum. Ambos temos este carácter de “nações-ponte”, por estarmos nas fronteiras e termos relações com o que está à nossa volta – nós relacionamo-nos com o Leste, e vocês,
portugueses, relacionam-se com o Atlântico.

Transmitir essa informação é parte também da função de uma Embaixadora… Quais são os objetivos para esta sua missão em Portugal?

A Roménia e Portugal desfrutam de uma excelente cooperação bilateral, com base numa visão comum compartilhada no seio da UE e dos outros organismos internacionais – como a NATO e a ONU. A história das relações entre os dois países é baseada, em primeiro lugar, na língua comum e na cultura, um aspecto enfatizado por importantes figuras da cultura romena e da diplomacia, como Lucian Blaga, Mircea Eliade ou Nicolae Titulescu. Lucian Blaga, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário em Portugal, sublinhava, nas suas cartas credenciais, em 1942, que a Roménia é “cidadela oriental do mundo latino,” e Portugal “cidadela ocidental da latinidade na Europa”. Titulescu apreciou a cooperação com os representantes da nação portuguesa como sendo muito boa e isenta de controvérsias. Isso ainda é válido, visto que os elementos definidores da relação bilateral são a vocação de ponte destas cidadelas de origem latina e a ausência de controvérsias entre os representantes das duas nações.
Hoje, a República Portuguesa é considerada um parceiro sólido da Roménia, a relação bilateral
sendo muito boa a nível político, com potencial de desenvolvimento no plano setorial, principalmente no setor económico. Antes de ser nomeada Embaixadora, tive de ser ouvida pelo Parlamento romeno para lhe apresentar o meu mandato. Essencialmente, tenho três prioridades. A primeira é consolidar e incrementar as nossas excelentes relações bilaterais; em 2017, vamos estar a celebrar os 100 anos desde o estabelecimento das nossas relações diplomáticas e temos em vista um calendário muito dinâmico de visitas, incluindo algumas das mais altas personalidades romenas. Para nós, é muito importante continuar esta cooperação que temos tido no campo da Segurança e da Defesa. Portugal tem o seu único
plano de ação em Segurança e Defesa com a Roménia, e temos tido uma experiência muito boa, a começar com o nosso programa F16, que nos levou a realizar duas cerimónias, uma em Monte Real, em Portugal, e outra na Roménia, que envolveram os nossos Primeiros Ministros e
Ministros da Defesa. Isto serve de base para a colaboração em outros setores, como o económico, onde temos ainda muito que pode ser feito. A minha segunda prioridade é, por isso, aumentar as nossas relações comerciais e a nossa cooperação económica. A terceira prioridade está relacionada com a comunidade romena aqui em Portugal e passa por promover a cultura, a diplomacia pública e tudo o que esteja relacionado com a imagem da Roménia.

Temos aqui em Portugal uma enorme comunidade romena…

Sim, e ela foi muito bem integrada na sociedade. A comunidade romena é a quarta maior no país e a primeira entre os países-membros da UE. São mais de 30 mil pessoas, bem integradas, tal como o Presidente de Portugal e o Ministro dos Negócios Estrangeiros já disseram. Os próprios romenos aqui sentem-se bem. Vocês, portugueses, sabem muito bem acolher os outros. Provavelmente isso vem da vossa História, tal como a vossa abertura e tolerância. Criaram instrumentos muito interessantes para integrar os outros, ao mesmo tempo que permitem que mantenham a sua identidade. Eu vejo isso na comunidade romena. Dou um exemplo: assinámos um acordo quando Cavaco Silva esteve na Roménia que nos permitiu ter um curso de Língua e Civilização Romenas em Azeitão. Inaugurámos também o Window Towards Romania (Janela Sobre a Roménia), um espaço nosso na biblioteca da escola onde se produz um primeiro contacto com a Roménia e faz os estudantes sentirem-se curiosos
pelo país. Uma das coisas de que mais gosto em Portugal é desta multiculturalidade e da abertura que aqui existe. O diálogo entre os nossos povos beneficia-nos aos
dois, é uma situação winwin, e tentamos transmitir à comunidade romena que eles são igualmente embaixadores do seu país. Temos todos de concentrar os nossos esforços para defender, o melhor possível, a Roménia.

Além da abertura e da tolerância, o que mais aprecia em Portugal?

Acho que Portugal é fantástico! É um país muito bonito a todos os níveis, das paisagens às pessoas e as pessoas são o recurso mais valioso num país! Para um diplomata, Portugal é um dos melhores locais para trabalhar. É um país muito aberto, muito profissional, com uma diplomacia muito boa (pude assistir ao vosso sucesso com a eleição de António Guterres na ONU), com diplomatas com quem podemos ter discussões muito interessantes, e é um país que sabe receber muito bem. Admiro a vossa capacidade de organizar eventos, de se promoverem a vocês mesmos e de se adaptarem. Estou muito feliz por estar aqui e considero-me muito sortuda! Apesar de só estar aqui há poucos meses, tenho dito a toda a gente que me sinto muito abençoada por estar neste país.

E falando de Economia: quais os setores da economia romena que estão disponíveis a
receber investimentos portugueses?

Todos os setores estão abertos, uma vez que estamos no mercado único e, portanto, não há barreiras. Temos um ambiente muito saudável e seguro para investimentos, apoiado pela agência Invest Romania. No entanto, as principais áreas para fortalecer a cooperação são: energia, indústria alimentar, turismo, agricultura, indústria automóvel, TI&C, indústria têxtil,
marcenaria, construção e transportes. A experiência de Portugal em matéria de desenvolvimento de infra-estruturas de transportes e absorção dos fundos europeus
são fatores que podem impulsionar as relações económicas entre os nossos países. Além
da cooperação nos domínios tradicionais, vou concentrar-me em identificar e promover novos domínios de cooperação, com relevância para os domínios de excelência e setores de tecnologia avançada, como por exemplo a identificação e promoção de start-ups na área de TI. Portugal tem uma presença consistente na Roménia a nível de investimentos, especialmente no sector imobiliário, nas infraestruturas e na energia. Contudo, há ainda muito potencial, especialmente se tivermos em conta o território e a dimensão da Roménia, e a Câmara de Comércio que temos aqui tem feito um esforço para incrementar as relações. Neste momento, Portugal está em 22.º lugar na lista de investidores na Roménia, e obviamente que pode
estar ainda mais alto. Na Embaixada, somos uma plataforma de network entre a Roménia e Portugal. Tivemos uma participação excelente no Web Summit, por exemplo… Temos noção de que Portugal passou por uma crise económica que teve consequências para a
população, mas tenhamos em mente que há muitas semelhanças entre os nossos dois países – por exemplo, constatámos que somos países com diásporas substanciais, e isto pode ser o início de discussões sobre abordagens comuns, inclusivamente a nível europeu, no que respeita os desafios que tanto a Roménia como Portugal enfrentam nessa perspetiva. Como pode ver-se, estamos a enfrentar até desafios idênticos…

E há uma notável proximidade cultural, expressa através da língua, por exemplo…

Sim, o português e o romeno são das línguas latinas mais próximas. As nossas duas línguas são as únicas que têm uma palavra relacionada com a nossa mentalidade e a nossa alma – a saudade. Dor é o equivalente romeno da palavra portuguesa saudade. Quer os portugueses quer os romenos costumam dizer que são os únicos detentores destas fascinantes palavras, intraduzíveis noutras línguas e difíceis de explicar. No entanto, muito poucos conhecem esta equivalência perfeita de que Mircea Eliade já falava em 1992. Do ponto de vista etimológico, a dor romena provém de “dolus” (latim vulgar), “dor” em português, enquanto a “saudade” vem do latim “solitate”, “solidão”. É interessante como estas duas fontes etimológicas resumem as principais características semânticas: dor/saudade refere-se a um sentimento contraditório, de alguma forma agradável, nascido da dor provocada pela solidão, resultado de uma separação/desaparecimento/distância. Estas duas palavras englobam conceitos-chave da cultura e história dos nososs dois países. Lucian Blaga, na Trilogia das Culturas, define o conceito de “dor” como uma espécie de “tonalidade”, intraduzível noutras línguas, que designa um estado de espírito para o povo romeno. No outro extremo da Europa, saudade, praticamente impossível de traduzir, define a alma portuguesa e faz parte da história de Portugal, sendo “a expressão estética de um sentimento-ideia que envolve uma complexidade
nem sempre facilmente apreendida”.

Consegue falar português?

Já comecei a aprender português, e isso tem-me sido realmente muito útil, porque tenho ido para fora de Lisboa em reuniões e em trabalho. Não quero que o meu mandato seja feito apenas em Lisboa ou no escritório. Já tive reuniões com os Presidentes de Câmaras no Algarve (porque é, depois de Lisboa, a região com a maior comunidade romena): já me reuni com os de Faro, Lagos, Portimão, já estive no Porto e Coimbra. De facto, a nossa comunidade está espalhada e tem negócios na construção e no turismo, e temos aqui músicos, professores, médicos, além de pessoas a trabalhar na agricultura. Possuímos um programa chamado “At Home at the Embassy”; convidamos a comunidade romena para um encontro na Embaixada de modo a mantê-la unida e a preservar a sua herança cultural.

A Roménia está geograficamente situada numa região muito complicada, estando próximo dos Balcãs, da Ucrânia e até da Turquia… Há a crença de que o mundo está a mudar e está mais instável. O que pensa do que se passa na Europa e, em especial, nos
arredores da Roménia?

A Roménia faz parte da UE e da NATO, e por isso nós atuamos em linha com estas duas organizações. Estamos a viver na Europa um dos períodos mais desafiantes da nossa História. Não podemos esquecer que, no seio da UE, sempre lidámos com crises várias, mas agora temos muitas a desenrolar-se em simultâneo – a crise económica, o drama dos refugiados, o Brexit, o aumento do populismo e do extremismo. O importante é recuperar a confiança na UE. Todos estes problemas podem ser ultrapassados, mas só serão com união e solidariedade. Por isso, a Roménia está muito satisfeita por fazer parte destas instituições. Reconheço que se vive um momento muito complicado em torno do Mar Negro, mas temos de continuar juntos e empenhar-nos na resolução dos problemas. Temos de mostrar aos cidadãos o quão importante é estar na UE, mas também temos de dar aquilo que eles precisam – segurança, emprego, bem-estar económico. A Europa consegue estar há décadas em paz, o mais longo período de paz, e isso é algo muito importante. Mas há ainda muito que pode ser melhorado na União, e temos de encontrar uma forma de o projeto funcionar melhor.

Que futuro prevê para a União Europeia, agora que o Reino Unido saiu e os dois maiores países da UE – Alemanha e França – vão passar por eleições no próximo ano?

Entristeceu-nos o resultado do referendo da Reino Unido. Mas o Brexit é o resultado de um referendo, e o país precisa de decidir se vai activar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa. França é um país muito ligado à UE; está, aliás, no seu ADN. Naturalmente, passará por um processo eleitoral, tal como a Alemanha, mas isso é algo perfeitamente normal numa democracia. O risco que tem de ser combatido na Europa está no aumento de popularidade dos partidos populistas. A este propósito, tivemos uma conferência muito interessante aqui em Portugal, uma vez que a Roménia preside neste momento a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, e discutimos a tolerância e como ela é hoje importante. Temos de aprender as lições do nosso passado; não podemos repetir os erros porque vimos aonde eles nos levaram.

A Roménia está pronta para enfrentar todos estes desafios?

Estamos prontos enquanto membros da UE e da NATO – temos os mesmos meios, os mesmos valores, os mesmos instrumentos. A Roménia está com grande vontade de dar o seu melhor e de contribuir da melhor forma para o fortalecimento destes projetos. Defendemos que não devemos criar linhas divisórias nem muros entre as nações. O próximo ano vai ser muito desafiante: haverá eleições, haverá que tomar medidas específicas para resolver alguns problemas, e vai ser assinalado o 60.º aniversário do Tratado de Roma, o que será um ponto essencial para se fazer um balanço de como estamos e de como queremos estar. Por conseguinte, no contexto de uma Europa que está sujeita a múltiplos desafios, a Roménia realça a importância da coagulação, a nível dos Estados-Membros, com vista a reforçar o apoio ao projeto europeu. Portugal é, obviamente, um parceiro próximo da Roménia na promoção destes objetivos. Cito apenas alguns temas de real interesse para o aprofundamento do diálogo e da cooperação em matéria de assuntos europeus: o futuro e a consolidação da UE; promoção de uma abordagem equilibrada entre as dimensões oriental e meridional da Política Europeia de Vizinhança; a manutenção da política de coesão como uma prioridade no futuro Quadro Financeiro Plurianual, e a gestão de uma crise de migração coerente e unificada.

É uma mulher otimista?

Sim, muito otimista! E acho que nós temos meios para lutar e resistir. A UE é um projeto que ainda atrai muitos países. Nós estamos dentro dela e, por isso, temos às vezes dificuldade em ver a sua beleza e as suas vantagens, mas os que estão fora é que se apercebem facilmente daquilo que conquistámos, como o mercado único, a livre circulação de pessoas e bens, o bem-estar da população. Quando pensamos nisso é que percebemos o quanto este projeto é merecedor da nossa dedicação e da nossa proteção. A UE ganha por ser um projeto que destaca e assegura as coisas boas que nós temos.

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