Entrevista a Inna Ohnivets, Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da Ucrânia em Portugal

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Entrevista a Inna Ohnivets, por Maria Bragança, fotos Gonçalo Coelho

Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da Ucrânia

Inna, é para mim um prazer enorme estar aqui consigo. Gostaria de começar mesmo pelo início, pelo seu percurso escolar e académico antes de se tornar diplomata.

Obrigada, o prazer é meu em conhecê-la e ter este privilégio de ser entrevistada pela Senhora Maria da Luz de Bragança à Diplomática. Eu nasci em Zhovty Vody, uma pequena cidade localizada no sudeste da Ucrânia. Esta cidade é famosa pela sua gloriosa história, porque foi o local onde, a 16 de maio de 1648, o exército de cossacos e camponeses de Zaporizhzhia, liderados pelo renomado Hetman ucraniano Bohdan Khmelnytsky, obteve a primeira vitória brilhante sobre as forças da União Polaco-Lituana lideradas por Stefan Potocki. Ao concluir o ensino secundário na Escola Secundária de Zhovty Vody, ingressei para a Escola Pedagógica de Dnepropetrovsk. Obtive o diploma de professora do primário e continuei os meus estudos na Faculdade de Espanhol do Instituto Pedagógico de Línguas Estrangeiras em Kiev. Depois de concluir os estudos, residi cinco anos na cidade de Leninsk (Cazaquistão), porque o meu marido, um oficial das Forças Espaciais da URSS, servia no Cosmódromo de Baikonur. Mais tarde ingressei na Faculdade de Direito de Kyiv e, na conclusão do curso, trabalhei na administração da cidade de Irpin, do distrito de Kyiv. Desde 1993 tenho trabalhado no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia.

Pode falar-nos da sua vida pessoal? É casada?

Sim, sou casada e este ano eu e o meu marido celebramos 30 anos de casamento. Temos dois filhos. Ambos escolheram a profissão de advogado.

Gosta de estar em Portugal? 

É claro. Portugal é um país europeu maravilhoso, com uma História antiga e uma cultura única, povo hospitaleiro e clima maravilhoso. Eu acho que é uma grande honra representar o meu país em Portugal e fazer todos os esforços para fortalecer a amizade entre os nossos países.

Teve a oportunidade de praticar turismo, visitar algumas cidades de Portugal? 

No meu tempo livre, o que ocorre infelizmente muito raramente, visito os arredores de Lisboa. Já estive em Cascais, Sintra, Sesimbra. Não admira que turistas do mundo inteiro venham desfrutar de Portugal. Há muito para ver!

Em Portugal, existe uma numerosa comunidade ucraniana. Tem reuniões com alguns dos seus representantes?

Desde os primeiros dias da minha estada em Portugal reuni-me com representantes da comunidade ucraniana. Segundo os dados oficiais, a comunidade ucraniana numera cerca de 40 mil pessoas. Estou muito satisfeita pelo facto de o povo ucraniano ter ganho notoriedade neste país pela sua diligência e sentido de responsabilidade. Os estudantes ucranianos em escolas e universidades portuguesas estão entre os mais bem sucedidos nos seus estudos. Os ucranianos não esquecem a sua Pátria e reúnem-se em organizações públicas para preservar a sua cultura, história e as tradições do seu povo, e ensinam-nas aos seus filhos e netos. Os ucranianos também desempenham um papel activo em vários eventos políticos e culturais destinados a informar o público português sobre os eventos na Ucrânia, a sua vida social e política. Por exemplo, recentemente a Embaixada, em cooperação com a comunidade ucraniana local, organizou em Lisboa a comemoração dos Heróis da Centena Celestial. Estes participantes do Euromaidan defenderam com a sua vida um dos valores morais mais elevados para o povo ucraniano – a dignidade. Por esta razão, os acontecimentos que tiveram lugar há dois anos na Maidan da Independência, a praça central de Kyiv, foram chamados Revolução de Dignidade.

Se tiver de descrever a Ucrânia numa frase, o que diria?

A Ucrânia é um símbolo da luta pela independência. Tendo recebido, há 25 anos, o estatuto de Estado soberano, a Ucrânia continua a defender a sua independência, porque o seu vizinho agressivo, a Rússia, anexou há dois anos a península da Crimeia e desestabiliza a situação no leste da Ucrânia, tendo provocado um conflito armado com a ajuda de militantes pró-russos nas regiões de Luhansk e Donetsk. Acredito que haja interesses naquela região que a Rússia gostaria de dominar… A Rússia sempre procurou capturar colónias e estabelecer-se como um império. Centenas de anos se passaram, mas nada mudou. A corrente liderança russa procura a qualquer preço, após o colapso da União Soviética, restaurar a posição dominante do império passado e, novamente, apertar o jugo das nações vizinhas. Mas a Ucrânia é um osso duro de roer. O povo ucraniano levantou-se decididamente em defesa da sua Pátria. A comunidade internacional, por sua vez, introduziu sanções económicas contra a Rússia, a fim de forçá-la a devolver à Ucrânia os territórios anexados.

A Polónia conseguiu afirmar-se tão facilmente… Porque é que a Ucrânia está a ter mais dificuldades?

A Polónia aderiu oportunamente à União Europeia e à NATO. A participação nestas comunidades internacionais influentes é a chave para estabelecer a segurança sustentável e a soberania dos países participantes. É por essa razão que a Ucrânia pretende aderir à UE e à NATO, para se tornar parte integrante do espaço europeu onde a democracia e o respeito pelos direitos humanos são valores fundamentais.

Este ano a Ucrânia vai celebrar o 25.º aniversário da sua independência. O que deseja ao seu país e ao povo ucraniano?

A 24 de agosto de 1991 a Ucrânia declarou a sua independência. Durante 25 anos o povo ucraniano construiu um Estado democrático, independente. Durante este tempo, cresceu uma geração inteira de jovens que nasceram numa Ucrânia independente e soberana. O tempo está do lado da Ucrânia, porque os ucranianos nunca retornarão ao cativeiro russo. Milhões de filhos e filhas heróicos estão dispostos a proteger a independência do nosso país com a suas próprias vidas. Essas pessoas não serão quebradas ou intimidadas. Somos descendentes de guerreiros gloriosos, famosos pela sua coragem nas batalhas pela liberdade do povo ucraniano. Eu gostaria de lhes desejar paz e prosperidade. O proeminente poeta ucraniano, de cujo nascimento a Ucrânia celebrou 202 anos a 9 de março deste ano, escreveu as seguintes linhas: “E na terra renovada O inimigo não estará, Estará um filho, e uma mãe, E haverá pessoas na terra!”. Que estas palavras proféticas do nosso grande poeta-combatente pelos direitos humanos se realizem logo que possível e que esteja restaurada a paz na minha terra natal.

A Diplomacia é muito importante…

Estou convencida de que o referido conflito armado que a Rússia iniciou contra a Ucrânia pode ser resolvido unicamente por via diplomática. A Ucrânia participa activamente no trabalho do Quarteto de Normandy no sentido de resolver este conflito. Além disso, especialistas ucranianos estão envolvidos em consultas diplomáticas a ser realizadas com a participação do representante autorizado da OSCE e Rússia. A resolução deste conflito armado requer a vontade política da liderança russa, que, infelizmente, continua a fornecer armas aos separatistas no leste da Ucrânia e não cumpre as obrigações dos acordos de Minsk. Além disso, a Rússia continua a ocupar a península da Crimeia.

A Ucrânia continua a representar esses territórios que estão ocupados pela Rússia?

A 27 de abril de 2014, entrou em vigor a Lei da Ucrânia “Sobre os direitos e liberdades dos cidadãos e o regime legal no território temporariamente ocupado da Ucrânia.” De acordo com esta lei, os territórios temporariamente ocupados da Ucrânia são uma parte integrante do território do país, estão sob a jurisdição do governo da Ucrânia, em conformidade com o direito internacional, a Constituição e as leis da Ucrânia.

Não seria possível a Igreja ajudar a resolver a situação?

De acordo com a Constituição da Ucrânia, a Igreja é separada do Estado. Portanto, é aconselhável resolver o conflito armado já mencionado entre os dois Estados vizinhos por via diplomática no formato já existente.

Existiu um referendo na Crimeia, mas as outras regiões que declararam a sua independência não puderam expressar a sua vontade, estão ocupadas. Tem alguma coisa a dizer a respeito da sua declaração de independência?

Quero enfatizar que o referendo organizado pelas autoridades russas na Crimeia sob a ameaça das metralhadoras dos “homens verdes” (forças militares russas) é ilegal. Foi realizada com uma grosseira violação da legislação ucraniana, e por essa razão a Ucrânia não reconhece os resultados do referendo. Uma situação semelhante passa-se com referendos nas regiões de Donetsk e Luhansk, parte das quais foi ocupada por terroristas pró-russos. Foram realizados os chamados “referendos” sem cumprir os requisitos da legislação ucraniana e foram criadas as autoproclamadas “República Popular de Donetsk” e “República Popular de Luhansk”, que são, essencialmente, as áreas de disseminação de terrorismo, onde operam bandos armados que competem entre si pelo poder.

Tem conhecimento de planos para a Ucrânia retomar os territórios ocupados?

A Ucrânia assinou os acordos de Minsk, os quais têm vários compromissos. Em particular, a Ucrânia comprometeu-se a fornecer mais direitos para as suas regiões, por exemplo no que diz respeito ao financiamento e aos governos locais. Além disso, o lado ucraniano comprometeu-se a realizar eleições locais nas regiões de Luhansk e Donetsk. No entanto, é claro que este compromisso só pode ser realizado pela Ucrânia após a restauração da sua soberania e integridade territorial dos territórios ocupados pela Rússia.

A Ucrânia tem mostrado desejos de pertencer, tal como Portugal, à União Europeia. Fale-me da União Europeia e de como está a balança comercial entre estes dois países. 

A Ucrânia assinou o Acordo de Associação com a União Europeia. Esta é uma das etapas de adesão à UE. Esperamos também que a UE, já este ano, inclua a Ucrânia na lista de países com regime de isenção de vistos. A Ucrânia está também ativamente envolvida na cooperação com a NATO através de vários programas. Atualmente, o volume de comércio entre a Ucrânia e Portugal é de 330 milhões de euros. O volume das exportações da Ucrânia para Portugal é de 290 milhões de euros, e da importação para a Ucrânia a partir de Portugal é de 40 milhões. São obviamente volumes pequenos e precisamos de desenvolver  activamente relações económicas mutuamente benéficas, porque têm um potencial significativo. Por exemplo, a Ucrânia pode aumentar significativamente a exportação de produtos agrícolas, têxteis, produtos industriais… Os produtos principais da exportação ucraniana para Portugal são cereais, oleaginosas, máquinas, aço e vestuário. A Ucrânia importa de Portugal laticínios, cortiça e as suas obras, maquinaria elétrica, caldeiras, têxteis, vestuário, calçado, produtos farmacêuticos… Importa referir que, em conjunto com o Acordo da Associação, foi assinado um Acordo sobre a zona de livre comércio, aprofundada e abrangente, entre a Ucrânia e a UE (DCFTA), que entrou em vigor a 1 de janeiro de 2016. Este Acordo visa a redução e eliminação das tarifas, que se aplicam por ambas as partes em relação às mercadorias de importação e exportação. Estamos seguros de que um dos principais incentivos da mercadoria bilateral dos nossos países será, exatamente, o funcionamento da DCFTA.  Além disso, a participação ativa das organizações empresariais nos eventos e exposições comerciais realizados em Portugal e na Ucrânia poderia aumentar a quantidade de contratos comerciais celebrados e, respetivamente, o volume de negócios bilateral.

Se tivesse nas mãos o poder de resolver este conflito, todo o poder, o que é que faria? 

Posso falar apenas a respeito das prioridades que tenho no meu trabalho. Gostaria de usar a minha competência e a minha experiência para ajudar o meu país a resolver este conflito e a defender a nossa independência. Acho que também a União Europeia nos está a ajudar ao aplicar sanções à Federação Russa. No meu entender, estas
sanções deveriam ser prolongadas, porque a Rússia não respeitou o estipulado nos acordos de Minsk. A Rússia deve devolver os territórios ocupados à Ucrânia, libertar os presos políticos, que são cidadãos da Ucrânia sequestrados pelos serviços especiais russos e por bandidos pró-russos nos territórios ocupados da Ucrânia e deportados à força para a Rússia, para serem objeto de punições demonstrativas e intimidação. Mas a Rússia nunca intimidará o povo ucraniano!

Talvez se for eleito um novo Presidente russo a situação possa mudar…

A situação na Rússia pode mudar somente quando o povo russo perceber que a política seguida pela liderança russa leva o país para o abismo. A Rússia tornou-se um país isolado que perdeu credibilidade na arena internacional.

Gostaria de deixar alguma mensagem à juventude? Você sabe muito, são mais de 20 anos de Diplomacia… O que diria aos jovens do futuro?

Desejo aos jovens perseverança para atingirem os seus objetivos e realizarem plenamente os seus talentos e habilidades. Respeitar as outras pessoas, ser capaz de persuadir de forma convincente e encontrar compromissos é a chave para o sucesso, não só na Diplomacia, mas também em todas as outras esferas da vida pública. E, certamente, devemos ser otimistas, acreditar em si mesmos e ter amigos confiáveis.

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