Crónica da Embaixadora da Roménia Ioana Bivolar – 100 anos de relações diplomática

Em 2017 a história regista 100 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas entre a Roménia e a República Portuguesa. Ao longo do tempo, grandes nomes pertencendo a ambas as culturas – historiadores, filósofos, escritores ou poetas – mantiveram a ligação histórica, as relações de amizade e de entendimento, de colaboração e de conhecimento e reforçaram estas relações através das suas diligências. O Governo português reconheceu a independência de estado da Roménia em 1880, ano em que se realizou uma troca de medalhas entre o Rei Carol I e Dom Luís I.

Após a morte do Rei Carol I, em 1914, sobe ao trono da Roménia Ferdinand I, neto da Rainha D. Maria II de Portugal. Ferdinand nasceu a 24 de Agosto de 1865, na Alemanha, em Sigmaringen, como filho do meio do irmão do Rei Carol I da Roménia, o príncipe Leopold de Hohenzollern e da Infanta Maria Antónia de Bragança. A Princesa Antónia, grande apreciadora das artes plásticas, ela mesma pintora, teve um forte ascendente sobre a personalidade de Nando, o seu filho preferido. Dela, Ferdinand herdou a sensibilidade, a atracção pela religião, como também a consciência do dever.

Este rei, de sangue português, iria ficar para o seu novo país como o realizador do mais alto ideal nacional: o de reunir os romenos numa só pátria, a Grande Roménia, o que lhe consagrou o nome histórico de Ferdinand o Integrador. Durante o reinado de Ferdinand foi criada, em 1917, a primeira Legação da Roménia em Lisboa: a 1 de Setembro o deputado Victor Ionescu, na qualidade de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário da Roménia em Lisboa, inicia o seu posto em Lisboa. As Credenciais, dirigidas ao Presidente da República Portuguesa, Bernardino Machado Guimarães, eram assinadas pelo Rei Ferdinand e pelo Primeiro-ministro Ion I.C. Brătianu. A parte portuguesa concedeu o agrément a 13 de setembro de 1917. A missão de Ionescu em Lisboa durou perto de sete meses. Após a assinatura do Tratado de Paz de Bucareste entre a Roménia e os Potências Centrais (Tríplice Aliança), a 7 de Maio de 1918, o Governo presidido por Alexandru Marghiloman, conservador e germanófilo, pôs termo à missão do diplomata romeno na capital portuguesa. No fim da primeira guerra mundial, em 1919, as representações diplomáticas dos dois estados se reinstalaram em Bucareste e em Lisboa, respectivamente. A primeira a ser criada foi a Legação de Portugal em Bucareste, em Novembro de 1919. Nas Credenciais, o Presidente da República Portuguesa, António José de Almeida, levava ao conhecimento do Governo de Bucareste que, animado pela vontade de manter e fortalecer as relações de amizade e bom entendimento entre Portugal e a Roménia, nomeou Martinho Teixeira Homem de Brederode na qualidade de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Portugal em Bucareste. Brederode apresentou credenciais a 7 de Dezembro de 1919 e ficou conhecido na história como o embaixador português apaixonado pela Roménia.

No fim da sua carreira diplomática, da qual se aposentou em 1934, Brederode ficou na Roménia onde faleceu e foi sepultado em 1952. A Legação da Roménia em Lisboa seria também recriada a 1 de Setembro de 1920, através de decreto real, sendo enviado para o posto um diplomata de carreira, Ion N. Tresnea-Grecianu, profissional com uma vasta experiência. A partir do dia 1 de Abril de 1922 e devido a razões exclusivamente económicas e orçamentais, o governo liberal romeno tomou a medida drástica de fechar algumas das missões da Roménia, entre as quais a Legação em Lisboa. Apenas em 1927, o Ministro Plenipotenciário da Roménia em Madrid, Anton Bibescu, foi também acreditado em Portugal. A Legação será reestabelecida em 1930, com Alexandru Gurănescu na qualidade de Ministro Plenipotenciário, e definida sempre como uma missão diplomática de primeiro nível da Roménia. Personalidades marcantes do período de entreguerras foram enviadas junto da Legação de Lisboa: Lucian Blaga, filósofo, poeta, dramaturgo, publicista, ensaísta de envergadura internacional (escritor proposto para o Prémio Nobel em 1956), enviado na qualidade de Ministro Plenipotenciário da Roménia (1 de Abril de 1938 – 1 Abril de 1939) e o cientista Mircea Eliade, escritor e historiador das religiões, enviado na qualidade de conselheiro cultural e de imprensa (Fevereiro de 1941- Janeiro de 1945). Em 1947, o representante diplomático da Roménia em Lisboa é exonerado e as relações diplomáticas com Portugal entram num cone de sombra,ficando interrompidas até 1974  As relações diplomáticas com representação a nível de Embaixada, foram reestabelecidas a 31 de Maio de 1974, logo após a “revolução dos cravos” em Portugal, através de um comunicado comum assinado em Londres.

A Roménia foi, na altura, o primeiro país da Europa de Leste que retomou as relações com Portugal. A 100 anos desde o estabelecimento das suas relações diplomáticas, a Roménia e Portugal beneficiam de uma excelente cooperação bilateral, baseada inclusive numa visão comum no âmbito da União Europeia e de outras instâncias internacionais – Aliança do Atlântico Norte e Organização das Nações Unidas. Nos últimos anos e na sua totalidade, as relações romeno-portuguesas foram elevadas a um nível de excelência, com base na comunidade de valores e princípios, nos interesses e objectivos quási-similares, mas também na herança cultural e linguística latina comum. Mantemos um diálogo de qualidade, inclusive a alto nível, as relações económicas, comerciais e de investimento se situam numa curva ascendente, mesmo que ainda exista um potencial de crescimento insuficientemente
explorado. As relações em plano educacional e cultural estão em plena expansão, devido também ao trabalho dedicado das nossas Embaixadas e dos centros culturais abertos pelo Instituto Cultural Romeno e pelo Instituto Camões. As trocas culturais contribuem de
modo significativo a um melhor conhecimento entre os dois países, entre os romenos e os portugueses.

Em 2017, a Embaixada da Roménia na República Portuguesa e o Instituto Cultural Romeno de Lisboa desenvolvem um amplo projecto de diplomacia pública e promoção cultural para a celebração do centenário das relações diplomáticas. Serão realizadas, mensalmente e em prestigiados espaços culturais lusitanos, manifestações que terão em primeiro plano capítulos-chave da cultura romena, tanto na sua dimensão contemporânea, como histórica, filme, literatura, teatro, pintura, joalharia, escultura, arquitetura, dança, musica, história das religiões, linguística e semiologia, tradições. O programa maratona foi inaugurado no mês de Janeiro na Cinemateca portuguesa com o evento “Um século de cinema romeno” e com uma maratona de leitura” Lisboa lê em romeno!”.

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