Carlos Aguiar – Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa

Carlos Aguiar

Carlos Aguiar

Carlos Aguiar tem 62 anos, é casado, com dois filhos e cinco netos, e é advogado,
ininterruptamente, há quase 40 anos.
Tem-se dedicado, sobretudo, às áreas do Direito Comercial e das Sociedades, mas
nunca deixou a prática forense na área cível e comercial. Ultimamente também se
vem envolvendo em arbitragens, desempenhando o papel de árbitro.
Integrou, durante cerca de 15 anos, como sócio, uma sociedade de advogados
fundada pelo Dr. João Morais Leitão. Há 21 anos, fundou a sociedade de advogados
onde continua a exercer a sua profissão.
É Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa desde maio do ano
passado, e o seu mandato termina dentro de dois anos. A sua ligação à Câmara é, no
entanto, de muitos anos, tendo anteriormente sido um dos seus Vice-Presidentes.

A Câmara de Comércio Luso-Francesa é uma instituição de referência. Quer contar-nos como e quando teve início em Portugal?

Dentro de dois anos, a Câmara comemorará 130 anos de existência e de atividade, em prol das relações económicas bilaterais entre Portugal e a França, e de aproximação entre estes dois velhos povos europeus. Foi e é uma presença contínua, que atravessou vários regimes, desde a monarquia às diferentes repúblicas, e testemunho eloquente de que as relações entre povos transcendem as mudanças de regime político e as tensões ou rivalidades entre pessoas ou entre Estados. Nos seus primórdios, sobretudo um ponto de encontro de residentes e homens de negócios franceses em Portugal, a Câmara veio gradualmente a estruturar-se e a profissionalizar-se como uma associação, vindo a ser reconhecida pelo Estado Português como pessoa coletiva de utilidade pública.
Temos registos deste nosso passado e destes nossos “pergaminhos”, que, confesso, conheço mal, mas um dia, assim espero, alguém com tempo e saber irá
reconstruir com mais precisão e paciência essa nossa história, que muito nos orgulha. A Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa fê-lo, recentemente, com um magnífico livro intitulado “180 Anos de História – Da Associação Mercantil Lisbonense à Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa”!

Pode falar-nos da expansão da Câmara, sobretudo no tocante aos Associados?

Aproximamo-nos hoje dos 600 sócios, sendo a grande maioria empresas francesas e portuguesas dos mais variados setores de atividade, na indústria, no comércio e nos serviços, incluindo os serviços financeiros, seguros, turismo, transporte, consultoria e publicidade e gabinetes de advogados, contabilidade e auditoria. Todos os anos publicamos um “Directório” com informação dos nossos sócios, e que é um instrumento muito útil para aquilatar da presença francesa em Portugal.
Temos a nossa sede em Lisboa e uma delegação no Porto. Temos uma Revista, a “Aspectos” (com cinco números publicados em média num ano), que é difundida igualmente em França, e que se tornou uma referência no domínio das trocas económicas entre os dois países.
Temos uma actividade intensa, habitualmente com um elevado número de participantes, de realização em Lisboa e no Porto de Seminários, Encontros, Fóruns e Mesas-Redondas sobre temas da atualidade e de interesse, como os que foram recentemente realizados sobre o Imobiliário, o Automóvel, a Aeronáutica, o Outsourcing e, em breve, o Turismo de Saúde.
Fazemos Almoços-Debates regulares, em Lisboa e no Porto, para os quais convidamos personalidades da nossa vida política, da administração pública e do mundo empresarial, e para os quais solicitamos a outras Câmaras de Comércio que se associem. E, além disso, organizamos pequenos-almoços temáticos, jantares e business drinks. Há 22 anos que organizamos um Jantar Anual de Gala em Lisboa de atribuição de prémios (os “Troféus”), em que distinguimos empresas portuguesas e francesas em variados vetores da sua atividade. Mas a nossa atividade principal sempre foi, é, e continuará a ser a promoção e o apoio na implantação em Portugal de empresas e de cidadãos franceses e o acompanhamento de empresas e de cidadãos portugueses nos
seus negócios em França, seja para uma implantação duradoura, seja para acederem ou alargarem oportunidades de negócio em França.

E quanto aos investimentos de empresas França /Portugal-Portugal/França?

A França é hoje um parceiro comercial chave do nosso país, com uma presença muito antiga e muito estável. Mesmo em períodos de crise económica
acentuada, as empresas francesas mantiveram-se e não raras vezes cresceram. São cerca de 700 as filiais de empresas francesas implantadas em Portugal, das quais um quinto há mais de 40 anos e cerca de um terço há mais de 20 anos. E a França é, presentemente, o segundo empregador
estrangeiro em Portugal, depois da Espanha, e as suas empresas são das que melhor remuneram os seus trabalhadores.
Os chamados “luso-descendentes” em França, com uma forte ligação ao nosso país, são, só por si, verdadeiros impulsionadores dessa vinda do investimento francês para Portugal.
Em sentido inverso, a Câmara tem vindo, crescentemente, a organizar para empresas portuguesas missões de prospeção coletiva em áreas de negócio
específicas em França.
É bom salientar ainda que a comunidade de negócios Portugal/França é muito enriquecida pelo facto de que as universidades francesas, sobretudo, são o primeiro destino de muitos jovens portugueses que querem estudar no estrangeiro. E há um grande e bem-sucedido esforço de outras instituições
francesas em Portugal, com particular destaque para a Embaixada de França e a Alliance Française, no ensino e difusão da língua francesa, mormente
entre os nossos jovens.

O papel dos Embaixadores era até há alguns anos eminentemente político. Fale-nos da crescente importância da função económica dos nossos diplomatas.

Da nossa diplomacia económica ao nível dos nossos diplomatas sei pouco e acompanho pouco. No entanto, só tenho a dizer bem do trabalho do AICEP.
Têm-nos dado a honra de se associarem a várias das nossas iniciativas e são incansáveis na apresentação do nosso País perante os potenciais investidores estrangeiros. E fazem-no através de pessoas muito empáticas, disponíveis, competentes e fluentes, em inglês e francês. Têm sido um parceiro importantíssimo na divulgação de um Portugal sofisticado, acolhedor e amigo do investimento estrangeiro.
Outra vertente que surpreende pela positiva é a da iniciativa e da pró-atividade de dirigentes de Câmaras Municipais de todo o país, muito em particular dos seus Presidentes, que nos convidam a visitar os seus concelhos com o objetivo de evidenciar as aptidões e o interesse daqueles na captação de investimento estrangeiro.
E esta Câmara de Comércio naturalmente tem o maior interesse em corresponder a esses convites, não só para conhecer melhor a nossa realidade como
para ter a oportunidade de divulgar a sua ação para além de Lisboa e do Porto.
Pelo lado da diplomacia francesa, só tenho a enaltecer as excelentes relações que mantemos com a Embaixada de França e os seus Serviços Económicos,
e muito em particular com o seu Embaixador, Sr Jean-François Blarel, Presidente de Honra da Câmara, que nos distingue com a sua presença em muitos dos nossos eventos, e que é uma pessoa empenhadíssima e com uma compreensão aprofundada da parceria cultural, histórica, linguística e económica entre os nossos países. É uma pessoa influente, marcante e interventiva em qualquer destes domínios.
Deixo uma palavra também para os Conseillers du Commerce Extérieur de France, uma emanação do Estado francês, encabeçada em Portugal pelo Senhor
Pierre Debourdeau, e que têm sido incansáveis igualmente no estreitamento das relações económicas entre os dois países.

Gostaria que falássemos agora sobre algo inevitável: a atual crise económica e financeira mundial…

A deflação, o fraco crescimento económico e a concorrência de fatores sócio-políticos inquietantes (a polarização entre uma Europa do Norte, do Sul e do Leste, o crescimento de movimentos populistas, os refugiados, o terrorismo, o Brexit, a fragmentação política em Espanha e não só, a questão não resolvida da Grécia, a tensão com a Rússia e os sinais de crescimento de tendências isolacionistas nos EUA) estão a pôr em causa a coesão e o normal funcionamento da União Europeia e, receio, da própria Aliança Atlântica. Com riscos acrescidos na estabilidade e segurança em todos os países europeus. O ano de 2017 vai continuar a ser um ano de grandes incertezas, com eleições decisivas em França e na Alemanha e o início de uma nova Administração norte-americana.

A propósito… como encara o desenvolvimento de Portugal?

Muito dependente da situação e da conjuntura económica e política internacional e das incertezas que tentei evidenciar atrás. Agravado pela crise nos países lusófonos, com destaque para Angola.
É de esperar que seja possível evitar a fragmentação política e a perda de maiorias estáveis de governo e que os governos governem com pragmatismo,
sem preconceitos ideológicos e oferecendo confiança, previsibilidade e estabilidade aos agentes económicos. É essencial para o investimento, nacional ou estrangeiro.
O nosso bem mais precioso é, historicamente, a nossa coesão social, cultural e religiosa, a estabilidade secular das nossas fronteiras e a nossa
“moderação”. Os estrangeiros apercebem-se e enaltecem isso. É essencial, por exemplo, para o turismo, tão importante para o país.
Há, igualmente, um Portugal empreendedor, cada vez menos dependente dos favores do Estado, que corre para a frente, que é audacioso, ambicioso e
criativo, e que não se subsume já a Lisboa e Porto. Esse Portugal tem de ser acarinhado pelos poderes instituídos.

Que palavras gostaria de deixar para todos quanto às relações económicas com Portugal?

Que as incertezas dos tempos que vivemos, e que não se vão dissipar, sirvam para aproximar ainda mais os nossos dois países, no plano económico, social e cultural. Ouvi recentemente de altos dirigentes nossos palavras de muito apreço em relação a França (e do papel positivo que as câmaras devem continuar a desempenhar), e do lado francês creio que o sentimento é idêntico. O Senhor Presidente da República escolheu Paris para celebrar no 10 de Junho as Comunidades Portuguesas. É uma decisão excelente e muito arguta.

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