AS GUERRAS DO SÉCULO XX

Os dois conflitos mundiais, ocorridos no mesmo século, marcaram para sempre a História da Humanidade. A primeira e a segunda guerra mundiais estão ainda vivas como os conflitos mais devastadores do nosso percurso colectivo e o mundo de hoje, seguramente, seria outro sem a sua eclosão. Cem anos se passaram sobre o início da I Guerra Mundial, setenta sobre um acontecimento que determinou o futuro da segunda, com o desembarque aliado na Normandia. Num e noutro conflito, as fronteiras da Europa e do mundo foram redesenhadas “a régua e esquadro”, afirmando a soberana vontade dos vencedores. Já tudo parece ter sido dito sobre estes dois acontecimentos, mas nunca é demais relembrá-los para que não se repitam. Porque, de um lado e de outro, as verdadeiras vítimas foram os povos, incluindo o alemão.

I Guerra Mundial (1914-1918) Cem anos atrás, o tiro que mudou o mundo

Não fora o assassinato do imperador Francisco Fernando, o destino da Europa e do mundo poderia ter sido outro. Mas é de prever que, num contexto em que as democracias eram apenas formais, o autoritarismo era a receita da governança e as pessoas viviam miseravelmente, a instabilidade e as revoluções iram, de igual forma, afirmar-se e mudar a história do velho continente e do mundo A 28 de Junho de 1914, um nacionalista sérvio decidiu o futuro da Europa e do mundo disparando um tiro contra o imperador austro-húngaro Francisco Fernando (Franz Ferdinand). O ato violento que ceifou a vida do monarca em Sarajevo, foi o rastilho para a eclosão da I Guerra Mundial, que se prolongou até 1918 e tirou a vida a 15 milhões de pessoas. Como consequência do conflito, as monarquias da Alemanha Áustria-Hungria, Turquia e Rússia foram derrubadas por revoluções, alterando o mapa da Europa e do Médio Oriente fazendo surgir novos países como a Jugoslávia (entretanto, fragmentada), o Líbano, a Palestina, a Polónia, a Síria e a Checoslováquia (entretanto, dividida em República Checa e Eslováquia). Começando na Europa, rapidamente a guerra se estendeu a outros continentes, arrastando para o conflito Estados Unidos, Japão, Turquia e Brasil, numa teia de redes coloniais e laços de natureza comercial, apoiando os dois grandes blocos em litígio. A guerra na Europa elevou-se assim ao seu estádio de verdadeira guerra mundial, na qual Portugal teve uma participação relevante.

Indústria de armamento e dramas humanos

A I Guerra Mundial, que se previa durar apenas alguns meses, prolongou-se por quatro anos e, pela primeira vez na História, assinalou a emergência da indústria de armamento, que encontrou no conflito um meio para a sua expansão, desenvolvendo novas armas que tiveram o seu campo de treinos em batalhas devastadoras em que os homens não eram mais que meros peões para as estatísticas do negócio. Por arrasto, o conflito trouxe também pesados custos económicos e sociais, uma inflação galopante, carências de alimentos fome, devastação da agricultura e aniquilamento do parque industrial não considerado vital para a máquina de guerra. No rescaldo, milhares e milhares de mutilados e homens enlouquecidos pelos efeitos da utilização gases.

Instabilidade social e revoluções

Num contexto de guerra generalizada, a insatisfação e revolta populares fizeram-se sentir, mesmo até no seio das próprias Forças Armadas. Um ano antes do final do conflito, o exército francês amotina-se contra o comando, protestando contra as miseráveis condições a que estavam sujeitos os militares e exigindo reformas. Na Rússia de 1917 o imperador era apeado em fevereiro e, oito meses depois (em Outubro), os bolcheviques sucederam a uma frágil república, retirando o país de uma guerra que acabou mais por “cansaço” do que por outra razão. Os países derrotados (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) assistiram a rebeliões e mudanças de regime. Por arrasto, os vencedores exigiram pesadas indemnizações à Alemanha que, destroçada pela guerra, teve de aceitar todas as condições, mesmo que nunca as tenha pago na totalidade. As imposições dos vencedores e a sequente humilhação do país com a perda de vastos territórios estiveram, de certo modo, na origem do discurso de ódio que, anos mais tarde, fez larvar o nazismo e o catapultou ao poder e, consequentemente, ao eclodir da II Guerra Mundial, em 1939.

Garantir o império colonial a todo o custo

É o lado “esquecido” da participação portuguesa na Grande Guerra, mas os números são demolidores: das cerca de dez mil mortes lusas registadas no conflito, perto de um quarto é que ocorreram nos campos de batalha da Europa. E, ao contrário do que se pensa, Portugal entrou no conflito muito antes da declaração de guerra da Alemanha, a 6 de Março de 1916. Dois anos antes, em África já se combatia Normalmente há a tendência para circunscrever a participação portuguesa na I Guerra Mundial aos campos de batalha na Europa, mais concretamente em França, mas a entrada do país no conflito decorre de um fator por vezes negligenciado: as suas colónias em Angola e Moçambique. E as causas da entrada de Portugal no primeiro grande conflito mundial podemos encontrá-las anos antes. Secretamente, Grã-Bretanha e Alemanha vinham negociando a divisão dessas duas possessões entre si, uma pretensão que remontava já ao período derradeiro do regime monárquico mas que adquiriu maior evidência com a instauração da República, a 5 de Outubro de 1910, e a chegada ao poder de políticos inexperientes, a que se seguiu um período de grande instabilidade governativa e social Com a eclosão da guerra, em 1914, o governo de Lisboa viu aí uma oportunidade de ouro para uma aproximação à Grã-Bretanha e forçar a sua entrada no conflito, garantindo a permanência dos republicanos no poder, muito desgastados com o descrédito da sua governação. Uma pretensão, porém, que não correspondia aos interesses imediatos dos ingleses, que sempre se opuseram à entrada de Portugal na guerra, pesem embora os insistentes pronunciamentos de que o país estava interessado. Desgastados num conflito marcado pela barbárie e a incerteza de um desfecho, aos aliados interessava reforçar o esforço de guerra na Europa o que levou a Grã-Bretanha a accionar o Tratado de Windsor (a mais antiga aliança militar do mundo entre dois Estados), em Fevereiro de 1916, pedindo a Portugal uma missão muito precisa: a apreensão dos navios alemães nos portos de mar nacionais. Finalmente, o governo republicano viu alcançado o objetivo que vinha trabalhando desde 1914. Portugal iria, formalmente, entrar no conflito, após a declaração de guerra da Alemanha.

Participação de Portugal é anterior à declaração de guerra Com data de 6 de Março de 1916, o embaixador alemão em Lisboa, Friedrich Von Rosen, faz chegar ao ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Soares, uma carta onde expressamente declara: “O Governo Imperial vê-se forçado a tirar as necessárias consequências do procedimento do Governo português. Considera-se de agora em diante como achando-se em estado de guerra com o Governo português.” No entanto, a participação de Portugal na guerra é anterior a este período. Efectivamente, já em 1914 o país se debatia em terreno africano com as tropas alemãs, travando combates junto à fronteiras de Angola e Moçambique, onde o Império Alemão tinha possessões. E embora seja sempre enfatizado o derramamento de sangue luso nas trincheiras da Flandres, foi de facto no terreno africano que Portugal registou o seu maior número de baixas. Só para se ter uma ideia, das cerca de dez mil mortes portuguesas registadas no conflito, perto de um quarto é que ocorreram nos campos de batalha da Europa. E, em África, a juntar à impreparação das tropas, chacinadas pelas investidas germânicas, junta-se um outro fator: as doenças tropicais, responsáveis por grande número de mortes. Para Portugal o saldo foi pesadíssimo, mas no final conseguiu defender e manter os seus territórios de Angola e Moçambique

II Guerra Mundial (1939-1945) “DIA D” – O momento decisivo

5 de Junho de 1944 marca o início do fim de um conflito que provocou mais de 50 milhões de mortos e 28 milhões de mutilados. Um ano depois, norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos ocupavam Berlim – o último reduto de Adolf Hitler e local de sua morte O 5 de Junho de 1944 marca a viragem decisiva da II Guerra Mundial a favor dos aliados, e quase proféticas foram as palavras do general Dwight Eisenhower na mensagem às tropas americanas antes de partirem para a Europa onde, em colaboração com ingleses, franceses e soviéticos, promoveram a derradeira investida para a derrota dos exércitos de Hitler. “Os olhos do mundo estão sobre vocês”, disse Eisenhower. E estavam, de facto. Cansados da guerra, reféns do desespero causado pela insanidade do ditador germânico, os povos queriam ver o fim de um conflito que praticamente destruiu a Europa e semeou a desesperança, o medo, a impotência, provocando mais de 50 milhões de mortos e 28 milhões de mutilados. Passaram 70 anos sobre o desembarque da Normandia, quando as forças aliadas atravessaram o Canal da Mancha e resgatam a esperança perdida dos povos ocupados, particularmente em França. Cinco mil navios – a maior esquadra de guerra jamais vista -, transportaram 150 mil homens e 30 mil veículos. Dos céus, 800 aviões largaram seis regimentos com 30 mil pára-quedistas. A maior operação militar de todos os tempos estava em marcha. Finalmente o “Dia D” tinha chegado.

A escolha da Normandia Os aliados largaram as suas bases nas ilhas britânicas e entraram no continente europeu quase totalmente ocupado pelas hordas nazis. Várias foram as razões para a escolha da Normandia, desde logo as características amplas e planas daquelas praias, situadas a 200 quilómetros do sul de Inglaterra, criando condições operacionais para o desembarque das tropas e facilitando a logística de abastecimentos e circulação de contingentes. Por outro lado, a região não era considerada estratégica para o exército alemão, que concentrava as tropas no porto de Calais, um local mais próximo de Inglaterra, e onde os generais nazis pensavam ir ocorrer a invasão. Mas outra razão determinou a escolha da Normandia: as praias ficavam entre dois portos de águas profundas – Le Havre e Cherburgo -, o que permitiria, à medida que a invasão avançasse, vir a tomar dois importantes pontos estratégicos para a entrada de navios. Cinco praias da Normandia, conhecidas pelos nomes de código de Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword, foram tomadas pelas forças aliadas, praticamente sem resistência, à exceção de Omaha onde as tropas alemãs não tornaram fácil o trabalho das forças libertadoras.

Viragem decisiva O papel da aviação foi aqui decisivo, sem aviões os alemães viram as suas defesas arrasadas e facilitado o desembarque aliado nas praias. A aviação alemã estava praticamente destruída sem capacidade de manobra e com os aparelhos concentrados a leste da Europa onde pretendiam suster o avanço soviético. A reação alemã, à excepção de Omaha, tardou, muito por razão da ação da aviação aliada que havia destruído várias pontos, fazendo os exércitos de Hitler empreenderem longos desvios para chegar à Normandia. No final do dia, 73 mil soldados americanos, 83 britânicos e canadianos haviam já ocupado as cinco praias, com um relativamente reduzido número de baixas: 5 mil militares, entre mortos, feridos e desaparecidos em combate. Um ano depois, as tropas aliadas chegaram à Alemanha. Soviéticos, americanos, britânicos e franceses tomaram Berlim – o último reduto de Hitler e local da sua morte. A II Guerra Mundial chegava ao fim com a capitulação do exército alemão.

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