André Jordan O empresário que trouxe a qualidade a Portugal

André Jordan é um dos mais bem-sucedidos empresários a trabalhar em Portugal. Chegou ao nosso país quando a vida ainda se fazia a preto e branco, mas mesmo assim teve a capacidade de ver o brilho e a cor da nossa terra. Viu potencial no turismo, desenvolveu projetos de urbanismo e investiu na qualidade. Depois do Belas Clube de Campo e da Quinta do Lago, entre outros, segue-se o Lisbon Green Valley, mais um projeto que muito promete.

O seu pai esteve também envolvido no mundo dos negócios. Sente que herdou dele o talento para os negócios? É uma boa pergunta! Acho que o meu pai, em termos puramente de negócios, tinha muito mais talento do que eu. Mas acho existe uma grande diferença entre nós – eu estou mais ligado à realização e à criação de projetos. Estive envolvido desde jovem em projetos grandes, de muito longo prazo, principalmente aqui em Portugal – a Quinta do Lago, o Vilamoura 21 e agora o Belas Clube de Campo, que são todos projetos de uma geração, quase. Por isso, digo que sou muito mais um developer do que um deal-maker.

 

Como se sentiu quando recebeu do seu pai a missão de gerir o negócio da família? Infelizmente, recebi esta missão à morte dele. Morreu muito cedo, com 61 anos. Na altura, fui obrigado a intervir porque ele estava envolvido em muitos empreendimentos em vários países, e tive de liquidar as operações e os negócios dele, fazer acordos com os sócios e começar de novo. Por isso, herdei mais a tradição e a marca do que propriamente a empresa dele.

Agora é um dos seus filhos que está à frente dos projetos… Como vê a ação dele? Ele é um homem de talento, de muito conhecimento. É um académico, uma pessoa muito preparada, dedicada e criativa. Tem a capacidade de encontrar soluções. Nós somos pessoas de resolver problemas. Não nos deixamos abater com as dificuldades; avançamos com soluções.

Quando chegou a Portugal, depois de ter vivido no Brasil, iniciou o projeto da Quinta do Lago. O Portugal dessa altura, dos anos 70, recebeu bem esta ideia? Nós tivemos um ótimo acolhimento das autoridades portuguesas, do setor, da Direção Geral do Urbanismo, do Turismo…Fomos muito bem acolhidos naquela altura. O Diretor Geral do Urbanismo era o Engenheiro Celestino da Costa, que era um homem invulgar, de grande saber e capacidade técnica, e que estava apostado em implementar e apoiar o urbanismo de qualidade. Viemos, portanto, responder a um objetivo que ele e o Governo tinham. Do ponto de vista do público português, não tivemos uma reação clara, pois contámos inicialmente com uma clientela de estrangeiros nas primeiras casas da Quinta do Lago. Nessa primeira fase da  abertura do empreendimento, foi quando surgiu também o emblemático restaurante Casa Velha, o primeiro da Quinta do Lago e aquele que atraiu as estrelas Michelin para o Algarve. Depois, veio a Revolução e, então, ficámos interrompidos em termos de mercado. Só em 1981, quando retornei à Quinta do Lago, é que demos continuidade ao projeto.

Sente algum tipo de mágoa ou ressentimento pela Revolução do 25 de Abril, na medida em que lhe trouxe alguns dissabores empresariais? Não, nenhuma! Achava que Portugal precisava de uma libertação, de Democracia, de liberdade. Do ponto de vista empresarial, houve uma interrupção forçada quando não se esperava que isso fosse acontecer. Mas depois tudo voltou ao normal, recuperámos a nossa empresa e houve a possibilidade de lhe dar continuidade

Nestas quatro décadas de contacto próximo com o público português, sente que ele se tornou capaz de compreender o luxo e o modo de vida das elites? Não sou muito apreciador da palavra “luxo”. O luxo representa excessos, indulgência. Eu sou mais a favor da palavra qualidade, e temos procurado trabalhar com a qualidade. Mas houve um fenómeno muito interessante: enquanto, no resto do mundo, a qualidade estava muito associada à opulência e ao excesso, Portugal sempre foi um país muito sóbrio e controlado no que diz respeito à qualidade (ou ao luxo, se preferir). Os portugueses são um povo muito discreto e até contido na sua maneira de ser e viver. E este estilo, que eu chamo “portuguese style”, é hoje aquilo que as elites do resto do mundo procuram. A contenção, a discrição, a sobriedade são um bem muito precioso hoje em dia e que faz muita falta. Portugal tem esse estilo, tem essa qualidade. Quando se diz que Portugal está na moda, eu acredito que seja muito por causa disso. Mas é claro que o facto de ser também um país barato fez com que o Turismo se tenha tornado também ele mais barato – infelizmente para nós, infelizmente para Portugal e para os portugueses. Hoje há inúmeros hotéis, restaurantes e serviços de qualidade, e há grande facilidade para os turistas, por isso deveríamos começar um processo de upgrade, não do produto, mas da clientela.

Porquê uma reforma da clientela? Porque o turismo que cá temos é um “turismo Zara” e precisamos de um “turismo Louis Vuitton”. Somos um país pequeno e não temos interesse em ter um turismo de multidões, de clientes com um relativamente baixo poder económico e que se aproveitam do facto de Portugal ser um país barato – ainda que possam vir de países com maiores rendimentos do que o nosso.

Sente-se de alguma forma responsável por Portugal estar na moda, na medida em que foi um dos primeiros investidores no Turismo português? Eu não incorporo a ideia que às vezes me transmitem de eu ser o “pai do Turismo português”; na verdade, nem sei do que estão a falar. Acho, sim, que introduzi o conceito da qualidade urbanística e ambiental, até porque somos pioneiros a nível mundial em alguns aspetos de preservação do ambiente. Mas, na verdade, o que aconteceu foi que eu identifiquei esse conceito da qualidade em Portugal e nos portugueses. Vi o potencial deste país, a vocação que poderia ter neste setor. Hoje, acho que é preciso aprimorar a clientela, trazendo outro tipo de pessoas, recebendo eventos de qualidade, promovendo a cultura e a culinária do país. São estas virtudes, associadas à sobriedade dos portugueses e à sua honestidade (que é um bem escasso nos dias que correm), que fazem deste um país incrível. Costumo dizer, na brincadeira, que Portugal é o melhor país do mundo para ser pobre, porque o pobre aqui encontra solidariedade, apoio, pessoas que vão compartilhar o pouco que têm com ele.

Tocou no assunto da preservação do ambiente e da sustentabilidade. Como vê esta questão no mundo de hoje, quando há ainda políticos e autoridades que desconsideram a importância de cuidar do meio ambiente? Eu não sou cientista nem técnico, mas não há qualquer dúvida de que o problema é sério, pela evidência de que há o aquecimento global e muita poluição. Enquanto os governos fazem grandes acordos, que são importantes, claro, é conveniente que cada indivíduo faça também a sua parte. Se cada um de nós contribuir, vamos salvar o planeta. Não vale a pena depositar no outro a esperança de agir. Temos de ser nós. Nos nossos empreendimentos temos tido grande cuidado e temos ganhado muitos prémios devido a isso. Acreditamos seriamente na necessidade de proteger o ambiente. Nós, que estamos aqui hoje, não vamos evidentemente ver o mundo amanhã, e esta mentalidade é o grande impedimento à ação. As pessoas nem pensam sequer no mundo que estão a deixar aos seus descendentes mais diretos. É fundamental salvar o planeta. Não tenho dúvidas disso.

Sabemos que tem um novo projeto em mente: o Lisbon Green Valley. Quer falar-nos um pouco dele? A base desse projeto é o Belas Clube de Campo, onde vivem 600 famílias, onde há baixa densidade de ocupação, e que está neste momento com acessos que são os melhores em Portugal e na Europa – não há nenhum bairro residencial em nenhuma capital europeia que tenha acessos como o Belas, que dão para todas as direções, para a cidade, para o campo, para o mar. Estamos dentro de um parque florestal de quase 900 hectares, rodeado por uma zona verde de dois mil hectares. Penso que temos boa arquitetura, bom urbanismo e ótimos serviços. Por isso, com o tempo, o Belas Clube de Campo, por ser em Lisboa e por atender a um mercado médio-alto, será mais importante do que a Quinta do Lago – que é uma estrutura muito consolidada, com quase 50 anos e que cada vez valoriza mais, o que é algo espantoso e formidável. O Belas Clube de Campo está muito bem posicionado, e estamos agora a retomar as obras, o empreendimento e as vendas com o Lisbon Green Valley, e está a ter muito boa aceitação. Mas qual é a razão da mudança para este empreendimento, ou o que traz ele de novo? Não é propriamente uma mudança; é mais uma evolução. É uma zona nova, um novo bairro, dentro do Belas Clube de Campo. Neste momento, estamos a desenvolver um núcleo de 300 fogos, entre casas individuais, casas geminadas e apartamentos.

De todos os projetos que desenvolveu, há algum que seja especial para si? Não, é como os filhos. Cada filho é especial à sua maneira. Gosto das qualidades de cada um dos meus projetos e sou tolerante com os seus defeitos – mas também exigente. Os projetos são amores. Saem das nossas entranhas, são muito trabalhosos e são de gestação longa. Desenvolvemos uma ligação quase como se fossem da família. Vivemo-los tão por dentro que ficamos sem a capacidade de os analisar em perspetiva, de fora.

Além da evolução do Belas Clube de Campo, há mais algum projeto que tenha em mente? Tenho muitas coisas em mente, mas não quero falar de nada, porque tenho de ter a noção de que, com a minha idade, não voltarei a fazer mais nenhum grande projeto. Tenho dois pequenos, mas muito bonitos, ligados a cultura, e talvez se propicie a possibilidade de desenvolvê-los. Eu também tenho uma atividade cívica e cultural muito intensa, estou terminando de escrever as minhas memórias, e todas essas atividades ocupam o seu tempo e são muito valiosas para mim.

Tem uma vida tão cheia e tão experiente, que é oportuno perguntar-lhe que conselhos daria aos jovens empresários ou aos empreendedores do nosso país… O trabalho, a persistência e a responsabilidade são os valores básicos que sempre se aplicam.

Mas gostava de concluir com esta ideia: tenho uma grande preocupação em relação aos efeitos da tecnologia no mundo da produção e do trabalho. Tenho notado, por observação direta, que o desemprego causado pelo avanço tecnológico vai aumentando. Quando as pessoas não são imprescindíveis, altamente qualificadas nas suas atividades (que é o caso da maioria dos trabalhadores), elas perdem um emprego e não conseguem um novo. Há poucos empregos hoje em dia, e, mesmo nas áreas dos serviços, há mais candidatos do que lugares por preencher. A sociedade parece-me desligada desta preocupação e desinteressada face ao que poderá acontecer. Há pessoas que são desempregadas de longa duração, que têm família, crianças na escola e têm obrigações financeiras e não conseguem um trabalho porque aquele que tinham ficou redundante, ou seja, foi substituído pela tecnologia e pela máquina. Penso que a sociedade ainda não entendeu o que está a acontecer e ainda não assumiu essa tendência. Constantemente sou procurado por pessoas que procuram empregos, por isso vejo bem de perto o que se passa e considero que a comunidade devia estar mais envolvida.

Em relação ao futuro do mercado de trabalho e da economia, vê-o com otimismo ou preocupação? É um misto. Se olharmos para Portugal, onde estou há quase 50 anos, notamos que houve uma evolução extraordinária em todas as áreas. No meu setor, o imobiliário, não havia profissionais quando aqui cheguei. Os escritórios em Lisboa funcionavam em apartamentos convertidos. Não havia organizações de venda sequer. Hoje há imensas empresas, portuguesas e internacionais, que funcionam lindamente. Portugal tem uma situação que soube aproveitar a nível da sua excelente colocação, e está a internacionalizar-se. O país abriu-se ao mundo, recebeu imigrantes também. O Belas Clube de Campo, por exemplo, tem pessoas de 25 nacionalidades a viver lá. E esta diversidade não foi procurada ou promovida; foi espontânea. Mostra como existe já um certo grau de internacionalização em Portugal. Caminhamos para uma sociedade internacional, de muitos imigrantes, mas a maior parte deles com elevados níveis de formação académica e profissional.

 

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